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Lembro-me bem do aparecimento do Bloco de Esquerda. Não era bem mais um partido, era um moralizador de política, uma força contra a convenção e o conluio históricos, contra o clientelismo. Era um partido político que demorou a ganhar expressão (e que muito deve à teimosia determinada de Francisco Louçã) mas que, quando finalmente chegou ao parlamento, desenvolveu um estilo de voz de consciência, já que a expressão dos seus votos não dava para mais. Sendo um partido, queria ser o partido fora do sistema, embora para se fazer ouvir tivesse de entrar no sistema… É sempre assim. Começou devagarinho, foi crescendo, e os deputados já não cabiam num táxi. Pegou neste crescimento e esfregou-o na cara dos políticos do “costume”: estava visto que o povo ia aderindo à “mudança”, a um novo discurso e postura. Ah, era o refresco que dava lições à letargia e ao compadrio. Serve tudo isto para achar que o caso Robles só dá para rir. Nem chega a ser grave, parece só uma precipitação amadora. Serve isto para dizer que esta trapalhada de tentativa de capitalizar milhões poderia ter vindo de qualquer partido, menos do Bloco. Este era o erro a não cometer, porque compromete seriamente a sua suposta mais-valia: ser o nosso segurança de alerta para negociatas. Robles cometeu algum crime? Não. A ingenuidade e vontade de enriquecer ainda não o são. Mas cometeu, senão o crime, a tremenda escorregadela política de morrer pela boca, como o peixe mais desprevenido. Que eu saiba, não lhe censuram a vontade de fazer uns milhões a que terá direito, mas descobrem-lhe discursos antigos, e recorrentes, e enérgicos, contra os grandes especuladores que defraudam a capital do Império, e os seus mais modestos e desprotegidos moradores. Dir-me-ão também que Robles não é o Bloco. Ah, desculpem, mas é o Bloco que quer juntar o currículo do partido à opção pessoal e familiar do vereador moralizador. Porque, como em tudo na vida, há o erro e o depois. O erro, sabemo-lo bem, todos, é profundamente humano, todos caímos nele. É o que fazemos depois com isso que realmente nos define. Por isso me parece que neste caso há que dar mais atenção ao que se seguiu após se descobrir o que se passava do que propriamente ao facto de Robles estar a tentar o negócio de uma vida. E aqui, além do próprio, veio Catarina Martins defender que este caso é diferente de todos os que o Bloco sempre criticou, chegando mesmo a usar a muleta mais actual e rasteira, a da perseguição da imprensa. Ah, que maravilha, essas costas largas dos jornalistas, esses maldosos… Dos argumentos usados, o que me parece mais patético é o que nos lembra que não há especulação, ou vertigem capitalista porque… o prédio, afinal, nem foi vendido. Pois. Não foi porque ainda não foi. Ou não foi ou não será porque se meteu toda esta trapalhada pública. Nada mais. Passou-se aqui qualquer coisa de muito grave? Não, e isso é ainda mais ridículo, ver o Bloco deixar-se manchar, mesmo que ao de leve, por uma ingenuidade, por uma incongruência grosseira, um erro de palmatória: não se envia para as eleições à Câmara um candidato que está a negociar na sombra tudo o que vai criticar em campanha. Os efeitos a médio e longo prazo logo se vêem. Mas custa ver como em poucos dias se ofusca o trabalho, realmente notável, que Mariana Mortágua mostrou na comissão parlamentar ao escândalo do BES. Não tem uma coisa a ver com a outra? Não, não tem. Mas a política é feita dessas injustiças.