A festejar mais um aniversário, a “diva das novelas” celebra ainda um marco especial: quatro décadas de atriz. A estrela fala em exclusivo à TvMais sobre este percurso, os segredos e que ponderou trocar a representação pela área que estudou. Assim, Alexandra Lencastre revela as suas mágoas e angústias em data especial.
Estudou filosofia, mas foi o teatro que lhe conquistou o coração. Estreou-se como atriz profissional e pouco tempo depois venceu o Prémio de Actriz Revelação (em 1986) da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. Estava aí dado o primeiro passo firme para o arranque de uma carreira marcada por inúmeros sucessos na televisão, nos palcos e no cinema. Hoje, Alexandra Lencastre é uma das caras mais conhecidas e acarinhadas do País. Seja pelo seu trabalho na ficção nacional, onde conquistou o título de “diva das novelas”, ou seja nos programas de televisão em que assume o divertido papel de jurada.
“Vale a pena continuar a andar por aqui”
Está a celebrar 40 anos de carreira.Qual o balanço que faz?
Que vale a pena continuar a andar por aqui, até mesmo pelos colegas e pessoas maravilhosas com quem me vou cruzando neste caminho. Isto passa tão depressa… Tantas pessoas que dizem: ‘A vida é curta demais”. A Lia Gama diz muitas vezes que “isto passa num sopro”. Devo todos estes anos a imensos nomes que, se não tivessem sido eles, eu não teria aparecido e nunca teria sido atriz. Principalmente produtores, realizadores e encenadores que me tiraram da “casca do caracol”, porque senão era lá que eu tinha ficado.

Qual o principal segredo para conseguir traçar um percurso profissional de atriz tão consistente ao longo destes anos?
Ter a noção de que estamos sempre a aprender. E sabermos que só faz falta quem está. Percebendo com isso que, se nós não estivermos, não fazemos falta. E isso remete-nos exatamente para valores como a humildade, o rigor, a disciplina e o trabalho. Valores esses que, às vezes, as pessoas esquecem-se e não podemos fazê-lo nunca. Porque neste meio somos substituídos com grande facilidade.
Ou seja, dar o melhor em cada desafio e não dar nada por garantido?
Temos de agarrar cada trabalho como um presente divino que nos chega.
“Já pensei desistir muitas vezes”
É melhor fazer personagens marcantes ou conquistaro carinho do público?
Tem de ser um equilíbrio entre as duas coisas. Mas acho que fui sempre muito acarinhada. Mesmo quando dizem mal de mim fazem-no de uma forma engraçada. Dizem-me: “Você é tão má…”. E isso dá-me vontade de rir. Há sempre qualquer coisa de positivo do público em geral. Especialmente quando, em teatro, podemos partir com a digressão de um espectáculo. A genuinidade das pessoas é incrível e se puderem vão ver a peça sexta, sábado e domingo. Aí sentimos um carinho que até nos abana, nos sacode a alma e nos faz bater o coração mais depressa. E isso é muito bom!
Para alguém que tem o carinho do público e uma carreira marcada por tantos sucessos, já pensou desistir?
Já pensei em desistir muitas vezes. Principalmente quando não senti esse sucesso e sentir-me muitas vezes frustrada por ter interpretado mal determinado papel. Por sentir que tinha feito mal o meu trabalho.
Chegou a ponderar mudar de profissão?
Ponderei muitas vezes terminar uma carreira e começar outra. Eu estudei filosofia, podia ser professora.
Mas não teria medo de o fazer?
Não. Eu sou uma mulher de trabalho. Adapto-me facilmente a tudo e de uma maneira feliz. Não fico amarga e azeda. Acho que qualquer nova profissão que eu abraçasse iria dar sempre o meu melhor.
“Não me sinto a diva das novelas”
Que importância tem o amor para si?
Muitas vezes, nos dias que correm, podemos comparar o amor à amizade. É uma forma de amor! Amamos os nossos amigos e, por vezes, de forma muito forte. E os atores também se amam uns aos outros. Por vezes, numa contracena, há quase relações de amor que são impercetíveis ao espectador.
Olha muito para fotografias antigas?
Quando vejo que estava gira em algumas fotografias – quando era mais nova –, acho que faço lembrar a Fernanda Serrano. É alguém que adoro e damos-nos muito bem. Para ela e para todas as atrizes desejo o melhor do mundo.
Sente-se a “diva das novelas”?
Não, não sinto nada disso. Então quando vejo o mulherão que é a Fernanda Serrano até entro em apneia (risos).
O que é que as pessoas não sabem sobre si?
Que arregaço as mangas e faço tudo. Gosto de lavar a roupa à mão, pendurar na corda, lavar a loiça ao mesmo tempo em que estou a cantarolar (risos). Gosto do trabalho de casa.
Juntamente com alguns colegas da TVI, já teve oportunidade de ganhar um Emmy (em 2010 com a novela “Meu Amor”). Foi um grande presente para todos?
Foi uma grande surpresa. Tínhamos instruções para caso ganhássemos, mas na hora nem nos lembrámos. Saltámos, levantámos os vestidos e fomos a correr para o palco. Ou seja, parecíamos miúdas!
As lembranças de Simone

Gostou de interpretar a vilã Simone na novela “Cacau”?
Muito! A Maria João [Costa, autora] é incrível. Saem-lhe ideias da cabeça a toda a hora. Nunca tinha feito uma novela dela e fiquei muito surpreendida. Aliás, temos autores muitos bons. Esta vilã tem uma característica muito diferente das outras: é realmente uma sociopata, uma louca. Completamente diferente de uma Luiza Albuquerque [de “Ninguém Como Tu” em 2005], que era uma pessoa mesquinha, complexada com as suas origens. Mas esta vilã é isso tudo e muito mais. Isso deu-me uma grande liberdade de ação. Toda a equipa foi muito querida em amparar-me nesta minha entrega, em não deixar-me cair.
Gostou do final escolhido para a personagem?
Ela poderia realmente ser internada… Mas não é esse o final (risos).
Por fim, chegando até aqui, com 40 anos de carreira, sente que o melhor já foi ou que ainda está por vir?
(pausa) Já foi!
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