Agora que passam 18 anos sobre o aparecimento da televisão privada em Portugal, é quase inevitável fazer balanço. O que era a televisão, o que é, e, sobretudo, para onde caminha. Matéria tão vasta que preencheria várias crónicas. Mas há algo que me parece já intransponível: em jeito de metáfora, diria que a televisão já abandonou a fase do erotismo e entrou na pornografia. Explico, socorrendo-me dos chamados "programas de entretenimento". Calhou, um dia destes, sentar-me e assistir à vida nova (nova?) de Fátima Lopes na TVI. É importante salientar que o caminho trilhado por este programa não é novo, nem exclusivo da TVI, nem exclusivo do país, ou da Europa. Por todo o lado, de forma mais ou menos disfarçada, alguns programas de televisão, pressionados e angustiados pela concorrência sem quartel e pela necessidade de sobrevivência, abandonaram os paninhos quentes de uma insinuada sedução (erotismo) e atiraram-se de cabeça a uma despudorada compra de audiências (pornografia). Sim, compra. Que outro nome dar a um programa que escolhe para sua espinha dorsal uma gaveta cheia de notas com as quais acena às pessoas? Sobretudo em época de desespero financeiro. Claro que há muito tempo que muitos programas têm os seus prémios, os seus passatempos com dinheirinho ao fundo do túnel. Por isso, reafirmo, o problema não é de hoje, nem exclusivo da TVI, muito menos da Fátima, de quem guardo apenas boas recordações. Mas esta nova fórmula de tirar a roupa do que restava de pudor ainda me causa alguma confusão. A táctica não pode ser mais simples e directa, e, pelo que sei, mais frutuosa. Os programadores já não querem sequer perder tempo a puxar pela cabeça, e esperar que os arroubos da sua imaginação resultem num programa inovador e atractivo, que naturalmente traz audiências, que por sua vez trazem publicidade, que por sua vez traz o dinheiro que alimenta a máquina. Num altura em que a margem de erro é escassa, e em que a paciência deixou de ser virtude, por ser demasiado arriscada, vamos lá, sem hesitações ou poesias, ao cerne da questão venha ao nosso programa, porque lhe damos dinheiro. A televisão parece ter-se deixado de sedutoras piscadelas de olho, para se tornar naquele macho que não tem tempo para tretas, e ao abordar a miúda no bar já está com a mão nas carnes a dizer-lhe para subirem ao quarto. Sabendo que não nada, mas nada, que fale mais alto do que o dinheiro, a televisão compra a atenção. É a mais antiga lógica empresarial do mundo: it takes money to make money. É isto, e apenas isto. Certa televisão já não vale mais do quem uma qualquer empresa de crédito fácil, com a vantagem de não pagarmos juros. Por coincidência, no dia seguinte ouço na rádio o spot promocional ao dito programa. Consegue ir mais baixo do que próprio. Ajudamos pessoas necessitadas, que bateram inesperadamente no fundo do poço financeiro? Qual quê, não é preciso tanto…O anúncio começa com vozinha de adolescente a informar o pai, timidamente primeiro, confiante depois, que lhe pegou no carro às escondidas, que bateu com o carro, e que depois o carro se precipitou no rio. E porque ganha confiança a cada nova revelação o rapaz, em vez de um providencial par de estalos?
Porque a tudo o pai vai sorrindo. Mas não só por ser um papá moderno e porreiraço, o que já não seria de estranhar… Mas porque o papá resolve o problema indo ao programa da Fátima, como nos informa, orgulhoso, o final do anúncio. Ou seja: mesmo que o seu filho seja mais um atrasado mental, insolente, desobediente e irresponsável, você tem um popó novo. E como terá um popó novo, o papá já pode não ligar ao facto de ter um pré-delinquente em casa. Prevejo variações do tema: o seu filho roubou uma ourivesaria? Não se angustie, a gente paga ao proprietário. O seu filho abusou de uma colega de turma? Fossem todos os problemas como esse, a gente paga á família para não levarem o caso a tribunal. Acha que exagero? Adoraria. Mas não me parece. Há lá papá português que resista ao cheirinho de um popó novo?
Capas
|Um Popó para o Papá
Actualmente, sabendo que não há nada, mas mesmo nada, que fale mais alto do que o dinheiro, a televisão compra atenção