1 – A notícia é triste, mas não teria novidade num mundo injusto: os acidentes acontecem. Um jovem de 20 anos caiu de uma varanda, que baloiçava lá em cima, num quinto ou sexto andar. Morte imediata, infelizmente. Mas eis que me apercebo dos pormenores do fatídico instante. E, embora continue a pertencer à categoria de acidente, é daqueles que se estava mesmo a ver que poderia correr muito mal. Não, o jovem não se debruçou simplesmente, para ver algo, chamar alguém. Não, o jovem não foi apanhado por uma forte e inesperada rabanada de vento. O jovem, compreendo pouco depois, era adepto de uma das mil “brincadeiras” das redes sociais da internet. Chama-se, pelos vistos, planking. E consiste, estúpida e simplesmente, em partilhar fotografias. Mas não umas quaisquer. Seja qual for o cenário, devemos fotografar-nos completamente deitados, de barriga para baixo, com o corpo hirto e firme. Obviamente que a brincadeira passou rapidamente do singelo banco de jardim às acrobacias mais perigosas, cretinas e desnecessárias. Dois funcionários de uma companhia, por exemplo, posaram para a posteridade em equilíbrio altamente instável, na boca de chaminés. Foram punidos disciplinarmente, sem apelo nem agravo. O que se compreende, aceita e aplaude. Era o que faltava uma empresa ter má publicidade às suas condições de segurança só porque alguns funcionários são adeptos, nas suas vidas privadas, de modalidade perigosa. O caso do jovem já foi mais sério. Excitado com proezas de outros, contava equilibrar-se, à força de peito e barriga, num exíguo varandim. A coisa correu mal, sem surpresa, e a queda foi fatal. Talvez não seja a melhor pessoa para me pronunciar, uma vez que tudo o que sejam as famosas “redes sociais” me passa completamente ao lado, mas é impossível não constatar que se trata de um verdadeiro mundo virtual, com regras próprias, mas que, em grande medida, me parece ter-se tornado na única vida de que algumas pessoas são capazes. Ou seja, não um acrescento de vida, devido à sua inquestionável rapidez e utilidade, mas a única vida. Uma vida enganadora, parece-me, e sobretudo com demasiados laivos de vazio e estupidificação. Que se utilize a internet para contactos importantes, mensagens úteis, troca de conhecimentos, acho óptimo. Nem sequer me causa confusão que se aproveite para a marota espreitadela do outrora fechado mundo porno, ou que se alimentem “relações” e flirts. Acho pobre, mas cada um sabe de si. Já me causa estranheza esta moda dos vídeos e fotos partilhados por tudo e por nada. Sobretudo quando se começa, como neste patético planking, a atingir as raias da estupidez. É triste que haja tanta gente interessada em ver milhares de outros deitados ao comprido nos sítios mais absurdos. E infinitamente triste que, na procura de ser comentado como o mais original e ousado, alguém acabe por perder a vida. Repare; para ser falado. Anda tudo ao mesmo.
2- Parecem-me também hirtos e firmes os líderes partidários no arranque da campanha (que não é mais do que já assistíamos há semanas, mas desta vez com vala de oficial). Hirtos e firmes numa altura em que tudo o desaconselha: o que os senhores que nos emprestam dinheiro menos querem ouvir é que ninguém está disposto a acordos ou coligações futuras, que são, inapelavelmente, urgentes e incontornáveis. Mas os líderes lá mantêm os discursos que julgam ser convenientes para “não dispersar votos”: Nem pensar que nos aliamos com fulano, não quero nem ouvir falar em coligações com sicrano, nós estamos aqui é para ganhar… Se todos percebemos que, apesar das tiradas categóricas sobre corridas a solo e não acompanhadas, não será difícil prever que o PSD chama o CDS se isso garantir uma maioria de direita, curioso será observar o que se passará se o PS conseguir baralhar todas estas contas. Estando Portas e Passos Coelho tão irredutíveis em contra com os socialistas, ou carregando na tecla de que o PS do futuro terá, no mínimo, de se ver livre de Sócrates, parece-me que as contas não se fecharão na longa noite do próximo 5 de Junho. Deverão seguir-se dias e dias de grande agitação. A ver quem passa de hirto e firme a “disponível para elaborar uma solução de interesse nacional”.
Nota: Por vontade do autor, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico