
A s mais de três dezenas de polícias britânicos que investigaram com afã o caso Maddie foram dispensados. Apenas quatro continuam. A Polícia Metropolitana de Londres (Scotland Yard) explicou em comunicado que há apenas algumas linhas de investigação a concluir e que a maioria do trabalho está feito. Até ao momento, de resultados, nada. Os quatro detectives serão agora os comissários liquidatários da operação “Grange”.
Operação “Grange”
Crítica do trabalho da PJ (Polícia Judiciária), a polícia britânica encetou a sua própria investigação – a operação “Grange” (ordenada em 2011 pelo primeiro-ministro inglês, David Cameron). Uma investigação inglesa feita em território português. Algo que nunca foi visto.
Show
Começaram por querer que os trabalhos fossem acompanhados pela imprensa. A PJ negou. Idos de Inglaterra para a Praia da Luz, polícias, geólogos e arqueólogos armados de tecnologia e cães pisteiros actuaram “sob supervisão da PJ e do Ministério Público”. A tudo isto, somaram-se inspectores da PJ, militares da GNR (a pé e a cavalo) e sapadores florestais portugueses disponibilizados por Portugal. Um cenário digno de uma superprodução de Hollywood.
Um fracasso
De helicóptero, a pé, ou de barco, com o auxílio de cães pisteiros, georradares e magnetómetros, os especialistas forenses britânicos fizeram buscas em 60 mil m2 de terreno, em condutas de gás, electricidade, esgotos e em edifícios em ruínas. Recolheram ossadas de animais, duas plantas de canábis, pedras, amostras de terra, uma peúga e garrafas. Guardaram tudo em caixas… Não descobriram nada, mas apontaram 60 pessoas de “interesse” e pediram que quatro residentes fossem constituídos arguidos. Desses, alguns até já tinham morrido. “Um filme para inglês ver”, disse uma idosa à CMTV, por aqueles dias na Praia da Luz, Algarve.
Morta
Na Praia da Luz, os polícias britânicos sempre evidenciaram que procuravam um corpo. Portanto, cedo deixaram subentender que Maddie estará morta. A PJ tinha-o concluído sete anos antes.
Visto sete anos antes
Todos os lugares que os agentes da Scotland Yard quiseram ver tinham sido batidos pelas autoridades portuguesas sete anos antes, logo a seguir ao desaparecimento de Maddie. Só até 11 de Setembro de 2007, a PJ investigou 2500 pistas falsas.
Vida de lordes
No Reino Unido muitos ficaram chocados ao saber como se tratavam os inspectores britânicos em Portugal. Diversas publicações inglesas noticiaram que, só no ano transacto, as 67 viagens de avião dos inspectores da Scotland Yard para o Algarve custaram 22 mil euros (€ 330 cada). Os detectives ficaram em hotéis de cinco estrelas, cujo preço por noite orça pelo menos os € 250 (Dona Filipa, em Vale do Lobo; Ria Park, na Ria Formosa, e Crown Plaza, Vilamoura). Nos jornais ingleses, houve quem sublinhasse a existência de voos low cost para o Algarve e de vários hotéis mais baratos e mais perto de Faro.
O que nós pagámos
No decorrer da operação “Grange”, o nosso país manteve durante meses uma equipa de seis inspectores da PJ de Faro a realizar as diligências solicitadas pelos britânicos. Pagámos nós. A estes, junta-se uma outra equipa de inspectores da Directoria do Norte da PJ, que esteve dois anos a fazer a reanálise do primeiro inquérito da PJ por solicitação britânica. Ninguém apurou quanto isso custou ao nosso país.
A histeria na investigação
• 2009, Maio Raymond Hewlett, pedófilo britânico condenado e entretanto falecido, foi apontado como suspeito. De facto, Raymond estava no Algarve em Maio de 2007, mas sempre disse nada ter tido a ver com o caso. De forma enigmática, afirmou que o casal McCann não terá contado toda a verdade. Depois morreu.
• 2010, Setembro Alguns jornais britânicos noticiavam que, afinal, a polícia inglesa desconfiava da máfia cigana. Nada.
• 2013, Maio Um detective sénior da Scotland Yard afirmou estar identificado um “bom número” de potenciais suspeitos.
Outubro Um britânico terá sido detido, por, alegadamente, ter dito que viu Madeleine McCann numa ilha do Mediterrâneo, em 2007. Sem mais indícios, teve de ser libertado.
Novembro A Scotland Yard vira atenções para outro morto. Euclides Monteiro, vítima de um acidente de viação em 2009, passou a ser suspeito de ter levado a menina do apartamento. Teria saído por uma janela e fugido de carro… Contudo, o homem não sabia conduzir, nem alguma vez teve automóvel.
• 2014, Janeiro A imprensa inglesa anuncia que a Scotland Yard viria a Portugal para, juntamente com a PJ, proceder à detenção de três pessoas. Ninguém foi preso.
Abril O detective Peter Bleskley, citado pelo jornal “Sunday Express”, diz que a “pista-chave” é que o presumível raptor de Maddie usava uma T-shirt de uma marca de cerveja portuguesa no dia do desaparecimento. Nem a T-shirt nem o presumível raptor foram encontrados. Por cá, muitos continuam a consumir a dita cerveja.
De suspeito a colaborador
Os desencontros na operação “Grange” chegaram a ser risíveis. O polaco Wojciech Krokowski, 52 anos, é empresário e passou férias na Praia da Luz em 2007. Saiu de Portugal a 5 de Maio, isto é, dois dias depois do desaparecimento de Maddie. Na altura, a hipótese de ser suspeito foi descartada pela PJ. De facto, o polaco tinha sido visto a fotografar crianças numa praia de Sagres. É fotógrafo amador e admitiu à polícia que fez centenas de fotografias. Passados estes anos, Wojciech Krokowski disse estranhar que a investigação britânica nunca tenha querido ver as fotografias. Pediram-nas agora. E ele deu.