
“A primeira viagem da terceira série de “Príncipes do Nada” teve o Haiti como destino. Um ano e meio depois do terremoto que matou cerca de 220.000 pessoas ( incluindo 96 membros das Nações Unidas) chegámos à capital Porto Príncipe ( eu, o produtor/realizador Ricardo Freitas e o repórter de imagem Hugo Gonçalves da produtora “Até ao Fim do Mundo”) e fomos confrontados com uma realidade muito difícil de aceitar: Milhares de pessoas que ficaram sem nada vivem ( ainda!) em tendas que, juntas formam gigantes campos de deslocados onde passam fome, sede, não têm acesso a saneamento básico, nem possibilidade de arranjar emprego. A cólera está a atacar com força. As crianças e as mulheres estão muito mais vulneráveis a situações de risco como violações, tráfico e violência física.
Encontrei um povo cansado de sofrer, cansado de estar permanentemente no foco das atenções devido às piores razões. Cansado de tantas promessas e de ter ( ainda !) o seu país por reconstruir.
A seguir ao terramoto, cerca de 2.000 ONG´s foram para o Haiti fazer ajuda de emergência. Muito trabalho foi feito mas existe ( e existiu) um notória falta de sinergias entre as diferentes ONG´s e talvez isso justifique o atraso na reconstrução do país. Ao passearmos pelas ruas só vemos vestígios daquilo que foram os edifícios, escombros e pessoas à beira das estradas a venderem os que lhes foi sobrando… Não há um haitiano que não tenha perdido alguém especial sem ter tido a oportunidade de se despedir porque os mortos encontrados foram todos recolhidos e depositados em grandes descampados numa tentativa de “limpar” a cidade. Hoje ainda por lá estão cerca de 400 ONG´s a trabalhar em diferentes áreas.
Mais uma vez, o nosso trabalho foi o de escolher projectos e pessoas que merecem ser destacados. Os “Príncipes do Nada”seguiram os trilhos da ONG Portuguesa Oikos que está a fazer um trabalho ao nível da construção de casas através dos materiais reciclados dos escombros. Fomos também filmar os projectos de Ocupação dos Tempos Livres das crianças implementados pela UNICEF ( 85% do ensino é privado e com o terramoto muitas escolas foram destruídas por isso as crianças haitianas praticamente não vão à escola!) Uma portuguesa, Mariana Palavra foi a nossa cicerone e falou-nos inclusivamente de outra dura realidade, a das crianças escravas.
Com o UNFPA ( Fundo das Nações Unidas para a População , do qual sou Embaixadora de Boa Vontade) fomos ver o trabalho essencial feito na Maternidade Croix-des-Bouquets para tentar reduzir a elevada taxa de mortalidade materna e infantil e verificar a assistência que é feita às mães que têm os seus bébés nos campos de deslocados em condições dramáticas.
Com a ONG espanhola Cesal e pela mão da portuguesa Maria Leitão percorremos um dos bairros mais problemáticos da capital, Cite Militaire e assistimos ao trabalho essencial de apoio psico-social às crianças afectadas pelo terramoto e o dia a dia de um centro de nutrição.
Foram 12 dias a assistir a situações difíceis de tolerar onde fica provada a capacidade de resistência do ser humano. Trazemos muitas histórias humanas de um povo que nos recebeu muito bem e que mantém a sua dignidade a todo o custo num país magnífico, muito católico e que merecia a sua oportunidade.”
Catarina Furtado