Ana Varela

Ana Varela, a protagonista de “Amar Demais”, da TVI, acredita que tomou uma boa decisão em ter aceite o desafio de fazer Ema, que diz ser o papel que mais a completou enquanto atriz. A produção está no ar nos serões da TVI e, além de ter sofrido vários revezes (devido à Covid-19), ficou marcada pelo falecimento de dois atores, Pedro Lima e Fernanda Lapa.

Apesar de todos os percalços, a atriz faz um balanço positivo. “Agora, com algum distanciamento, uma vez que terminámos as gravações no início de dezembro, percebo que foi muito difícil, muito exigente. Como atriz, ali vi-me inteira – esta personagem foi emocionante e muito exigente, mas só posso dizer que correu muito bem!”, diz. Ana assume que existiram momentos complicados numa novela que passou por altos e baixos nas gravações. “Encontrei uma expressão que posso aplicar a grande parte deste trabalho: tive sempre a sensação de que estava a nadar contra a corrente. Avançávamos e, em março, com a quarentena, parámos, e depois aconteceu a morte do Pedro [Lima]. Quando achávamos que não íamos perder mais ninguém, foi a vez da Fernanda Lapa. Nunca foi um trabalho tranquilo”, conta, recordando alguns momentos mais duros. “Vir para casa em março, estar com duas miúdas e continuar a trabalhar foi muito exigente. Mas foi a produção onde cresci mais como atriz. Quando olho para o ecrã, vejo-me inteira enquanto profissional.”

Ana enaltece todos os colegas e profissionais que trabalharam em “Amar Demais” e não esquece a união de todos e a forma como esta produção foi marcante. “Ali revi-me muito enquanto mulher e enquanto atriz. Éramos um grupo, estávamos todos unidos por uma causa. Foi difícil, foi duro, aconteceu muita coisa que nunca passou pela nossa cabeça quando nos estávamos a preparar para fazer este trabalho. Foi toda uma nova realidade. Fomos pioneiros nesta coisa do que é ser ator de máscara, gel nas mãos e distanciamento.”

“GOSTO MUITO DO FINAL”

A atriz confessa que o desfecho da trama e da sua personagem vai agradar. “Gosto muito do final! A Ema passa por coisas que fazem muito sentido, pelo menos para mim. Começou numa posição muito frágil, submissa. Encarei a Ema como a transformação da borboleta… Foram abordados temas muito importantes numa televisão que é vista pelo grande público, como a violência doméstica, a entrega necessária de uma mãe quando se tem uma criança com necessidades especiais ou a dor de perder um filho. A Ema do fim deixa-me muito orgulhosa. É um caminho que faz muito sentido, e no final consegue vencer todas as suas batalhas! Fiquei muito feliz e o público também irá ficar feliz!”

A atriz realça que a sua personagem está mergulhada em temas muito pertinentes e atuais, embora a violência doméstica tenha sido o que provocou mais reações e exigiu maior preparação. “Graças a Deus, nunca passei por uma experiência de violência na minha vida. Tive de fazer pesquisa, de falar com pessoas que passaram por esse tipo de situações e fiz uma busca dentro de mim. Antes das gravações trabalhei esta personagem durante um mês. Não é uma coisa que ligo um botão e está feito. É um trabalho muito intenso!”, reforça. “As pessoas que me enviaram mensagens eram quem já tinha ultrapassado a situação de violência doméstica. Nunca recebi pedidos de ajuda ou denúncias de alguém que era vítima. São, acima de tudo, pessoas que se identificam com a história.”

As gravações das cenas de violência doméstica contaram com o profissionalismo e apoio de Sérgio Praia, que interpreta Raul na trama. Ana não poupa elogios ao colega. “Não foram as cenas mais complicadas de gravar porque o Sérgio é um amor, é um colega incrível, estava sempre tudo bem para ele e colocava tudo do meu lado, dava-me tudo, foi de uma generosidade total.” Num papel tão intenso, a atriz admite que existem alguns traços de personalidade em comum entre si e a Ema de “Amar Demais”. “A busca pela filha: nessa altura, emprestei à personagem parte da minha determinação, que também já utilizei na minha vida para sair de situações emocionalmente dolorosas.” Pela primeira vez na ficção teve um papel de mãe. “Consegui trabalhar o meu lado maternal em cena, é a minha primeira personagem com filhos. Foram muito bonitos esses momentos. As personagens proporcionam sempre outros pontos de vista sobre as coisas. Neste caso, a Ema talvez me tenha ensinado a desconfiar. Colocou-me mais alerta e abriu-me os olhos.”

Ana confidencia que foi fácil despedir-se deste papel, pela sua intensidade e entrega total. “Não podia ter feito mais. Orgulho-me muito por isso. Entreguei tanta coisa que ficou aquele sentimento de dever cumprido. Não havia mais nada para dar, não havia mais por onde aprofundar. É o produto onde me vejo mais completa”, garante.

“EMPRESTEI ROUPA MINHA”

A atriz revela que o estilo e o vestuário da sua personagem tiveram uma inspiração pessoal. Ana vestiu literalmente a “sua” Ema. “Emprestei roupa minha, as calças principalmente, porque tenho alguma dificuldade em encontrar calças que goste de me ver e fique confortável”, revela, explicando ainda que características quis imprimir à personagem: “Falei com a figurinista porque tanto eu como a Ema somos as duas mães e temos de ser práticas. Quando veio a primeira proposta de guarda-roupa, achei que toda a gente queria construir muito a protagonista. Não a queria vistosa e a arrasar. Ela foi violada, talvez não tenha tido uma relação desinibida com o seu corpo, perdeu a filha… não pode estar sempre em bom. Podia ter optado por isso para esconder a dor, também acontece. Vivia numa relação submissa, por muito que tivesse dinheiro, era dele e não dela. Além disso, tem um miúdo que tem dificuldades de mobilidade, precisa de ajuda para vestir, para comer, muitas vezes tem de andar com ele ao colo”. Também foi obrigada a fazer cedências. “Nem queria que a Ema usasse saltos altos, mas lá aceitei. A minha Ema acabou por ser muito humana e simples. Eu, Ana Varela, sou mãe, muito prática, quero estar sempre disponível para qualquer situação, e existem muitas semelhanças entre nós, claro.” O oposto também aconteceu e atualmente não abdica de um acessório, que usa diariamente, e que começou a fazer parte do seu dia a dia na novela. “Ainda não me consegui desvincular de uma coisa que era da Ema: as argolas douradas, que usava durante as gravações e agora fazem-me falta se não as colocar. Já não sou ninguém se não usar argolas, estou viciada!”, remata a atriz, em tom de brincadeira.

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