
Esqueçam a crónica da semana passada, quando eu estava chateado com uma coisa que escreveram sobre mim. Quando, com o pretexto de “celebrarem o meu aniversário”, deram grande destaque a uma perninha que eu teria dado nas novelas, há 30 anos. Esqueçam, porque ao nível do mau gosto isso foi uma brincadeira de crianças. E desta vez não foi nos suspeitos habituais, a que costumamos chamar cor-de-rosa. Vem no muito importante “Observador”, um dos autoproclamados novos faróis da imprensa nacional. E desta vez estamos a falar de um obituário. Defendo que não há mortes mais importantes do que outras, mas o desaparecimento de uma figura conhecida do grande público causa uma natural comoção colectiva, uma vez que todos temos a sensação de ter partilhado parte da vida com essa pessoa, de tanto a ver trabalhar diante dos nossos olhos. João Ricardo partiu demasiado cedo, levado pela mais cobarde das doenças. Estava doente há bastante tempo, e a sua condição frágil já pedia algum respeito. Mas eis que o “Observador” faz assim a notícia da sua morte: “Morreu João Ricardo, o actor que viveu na rua e namorou com Teresa Guilherme”. Ele pode ter sido, ou não, um actor da nossa preferência. Mas ninguém lhe tira uma carreira. Fez teatro, cinema e muita televisão. O impacto da sua morte é esse, ser um rosto conhecido e reconhecido, com obra para mostrar, seja mais ou menos apreciada. Não merece que um jornal chame para título um qualquer episódio da sua vida pessoal, ou dois, no caso, sabe-se lá se com a intenção de nos esclarecer que se dava grandes ares mas chegou a ser, afinal, um sem-abrigo. Eu numa novela há 30 anos, João Ricardo a viver na rua e a namorar a Teresa Guilherme, ou quem quer que fosse, eis alguns exemplos do que pelos vistos podemos esperar de algum novo jornalismo. A irrelevância e a malvadez. Ao que parece, a nova luta da comunicação social mede-se em “likes” e sobretudo em “clics”, em manchetes enganadoras, porque, uma vez lá dentro já importa pouco o que lá está, o jornal já pescou mais um peixinho, para as suas continhas de fim de mês. Está visto que ninguém está a salvo, está visto que já não se pode, ou deve, fazer distinções entre os cor-de-rosa e os ditos sérios e credíveis. Anda tudo ao mesmo, por estes dias. Com a agravante de a guerra dos “clics” ter inúmeros soldados. Nas plataformas digitais estão todos em igualdade: televisões, jornais, rádios, redes sociais, blogues, e todos os demais que queiram acrescentar. Está visto que a comunicação social dita séria, institucional, de alvará passado pelo Estado para poder trabalhar, está a pensar combater a selvajaria da internet com mais porcaria. Parece que desistiu de os combater, para se juntar a eles. Escrevo isto no momento em que recebo, com choque, a notícia da morte de Pedro Rolo Duarte, jornalista da mesmíssima idade que eu. Daqui te mando um enorme abraço, Pedro, e sei que tu não gostarias de ver o que antevejo: o nosso bem–amado jornalismo a ensaiar técnicas de suicídio.
