
Lourenço. Foi este o nome que ambos escolheram quando abandonaram a entidade feminina com que nasceram. Mas muito mais os une. É que Lourenço Ódin Cunha e Lourenço Barcelos são velhos conhecidos. “Ele foi um dos miúdos que há oito anos, depois de eu entrar em ‘Casa dos Segredos’, me enviou mensagens a pedir orientações e conselhos. Desde essa altura que falamos com frequência, ainda há duas semanas estivemos a conversar. Mas não fazia ideia de que ele ia entrar no Big Brother!”, começa por revelar à TvMais Lourenço Cunha, ele que, em 2013, participou no reality show da TVI com o seguinte segredo: mudei de sexo este ano. O ex-concorrente, hoje com 39 anos, vê com bons olhos a entrada de Lourenço Barcelos no novo “BB”, pois acredita que, de alguma forma, poderá “passar o testemunho”. “Desde que participei tenho recebido centenas de mensagens, pedidos de opinião, de orientação de muita gente, e confesso que fico sem tempo para atender a todos com a atenção que estes casos merecem. Pode ser que, assim, o Lourenço e a sua história inspirem outros jovens e que ele também os possa ajudar”, conta-nos, revelando que, nos últimos anos, tem participado em inúmeras palestras, conferências e reuniões para contar a sua história, sempre “de forma gratuita”. “Faço-o porque acho que tenho esse dever, nunca cobrei nada”, frisa Lourenço Cunha.
“Ainda lhe falta tudo!”
Quando se apresentou aos espectadores da TVI, e também quando revelou aos colegas de programa que era transexual, Lourenço Barcelos, de 24 anos, disse que só lhe faltava a última cirurgia, referindo-se à parte da transformação dos genitais. Porém, isso é algo que não se faz numa só operação. “Quando ele diz que lhe falta essa cirurgia, quer dizer que lhe faltam cerca de 13 ou 14 pequenas cirurgias até ao fim do procedimento. Ou seja, ainda lhe falta tudo! Quando eu entrei já tinha feito quase 20 operações (agora já se fazem menos) e só me faltava a colocação da prótese. A única coisa que ele fez a nível cirúrgico foi a remoção dos seios, por isso, ainda tem um longo e duro caminho para percorrer. E digo longo e duro porque cá em Portugal, atualmente, este tipo de procedimentos está praticamente parado”, explica sobre as dificuldades que o estudante algarvio encontrará. Nos dias que correm é muito complicado fazer uma mudança de sexo no nosso país. “No serviço público não há consultas, não há operações, está tudo parado há vários anos, já antes da pandemia estava. Pelo privado há apenas um especialista dedicado à faloplastia, que é o meu médico, o dr. Décio, que não está a aceitar pacientes novos, está prestes a reformar-se e não tem sucessor”, diz. Quem precisa de fazer esta transformação tem de ir para fora. “Ainda há dias reencaminhei um miúdo para Londres, mas são cerca 125 mil euros. Se fosse em Portugal eram 30 mil.”
“O preconceito é inevitável”
Lourenço Ódin Cunha apoia a participação do jovem no reality show, mas, ressalva, “o preconceito é inevitável e não é preciso ser transexual para se sofrer com isso”. Um dos aspetos positivos foi o facto de, depois de ter estado no programa e ser reconhecido e chamado pelos colegas e pelos espectadores de Lourenço, nunca mais ninguém o tratou pelo nome feminino com que foi registado. “É muito duro quando ainda nos chamam pelo outro nome. É designarem-nos por uma coisa com a qual não nos identificamos. No meu caso, há mais de dez anos que me chamavam Ruca, mas ainda havia quem se referisse a mim pelo nome feminino. Após a ‘Casa dos Segredos’ acabou”, revela. Pode ser que o mesmo aconteça com Lourenço Barcelos, que, por vezes, ainda é chamado pelo seu nome feminino, Mafalda, principalmente pelo pai, que não aceitará muito bem a sua transformação. “Esta situação é muito complicada para todos, para nós, para as nossas famílias… É difícil para um pai e uma mãe entenderem e aceitarem. Felizmente, no meu caso, tive muito apoio deles, principalmente do meu pai, que até foi quem escolheu o meu segundo nome, Ódin.”