Não conheço pessoalmente o rapaz, e o pouco que conheço leio de vez em quando nas revistas, como qualquer outro. Não me move, portanto, nenhum juízo prévio. Mas do pouco que sei, reparo que o rapaz gosta de dar nas vistas das formas mais previsíveis: roupagens e atitude. Personagem histriónica, com aspiração a escandalosa. Orientação sexual dúbia, ou não assumida: cada qual sabe de si, quero lá bem saber que ande de salto alto, écharpe e lábios pintados. Mas eis que folheio um jornal de fim-de-semana e venho a saber que David Mota está em parte incerta (quero lá bem saber, a Justiça que se preocupe com isso). O que já quero saber, embora preferisse permanecer na ignorância, é que o rapaz abandonou à fome e à sede dois cães. Vejo pelas fotos que são dois cães de raça, uns pequenos buldogues franceses, que sei que não custam dois tostões. Deve tê-los adquirido (em cores diferentes) porque iam bem com a saia ou com a mala. Agora que já não servem para posar para a foto, deixa-os como se fossem um trapo velho. Leio que estavam de tal forma desidratados e famintos que um deles já tinha comido a coleira do outro, na tentativa de sobreviver. E assim, com pequenos pormenores, se fica a conhecer melhor as pessoas. Sei pouco do rapaz Mota, apenas que é filho de uma senhora que cumpre pena por ter mandado matar o marido. Sei que gosta de dar nas vistas pelo exterior, e que do interior pouco mais sai que uma banalidade ocasional, ou uma ou outra demonstração de intelecto pouco elástico. Mas coisas assim, repito, não tenho nada a ver com elas, que cada um seja feliz com o que quer e o que faz. Só não pode é arrastar para a sua ignomínia seres vivos que não têm culpa ou escolha. Em resumo, nada me move contra David Mota. Ou melhor, não me movia, até ler o que li. Se é verdade que fugiu ou se ausentou sem pensar por dois segundos nos cães que dependem dele, já tenho o suficiente para formar melhor uma opinião: o rapaz é um atrasado mental que deveria ser proibido (como tantos outros) de sequer se chegar perto de animais. Mas pelos cães não haverá indignação. Terão muito que esperar neste país, onde tão poucos se indignam, mesmo por crianças ou velhos abandonados.
2- Se eu pisar no acelerador na autoestrada e um radar der por isso, é certo e sabido que não tardarei a receber a multa em casa. Estamos num estado de Direito e há regras, senão isto era a bandalheira e a selvajaria. Mas será que estamos mesmo?
A final da Taça da Liga foi mais uma demonstração inequívoca do calibre daquela massa a que eufemísticamente se chama claques. Camionetas pejadas de bandos que lá entram com um único objectivo: partir o que encontrarem, agredir quem encontrarem. Pelo caminho, quase todo em autoestrada, foi um vendaval de destruição. Aqui e ali, quando conseguiu, a polícia aplicou umas bastonadas e tentou repor a ordem. Mas não vejo notícia de número de detidos igual ao número e variedade de actos ilegais. E quase que adivinho que nenhum dos rapazes, muitos deles bem identificados nas imagens, irá receber em casa notificação para pagar estragos ou responder por crimes. Pobre país, refém da lei do mais afoito. Anda tanta gente preocupada com a lentidão da Justiça…Mais valia preocuparem-se com uma realidade mais séria e mais injusta, sem a qual não há lentidão ou pressa: a ausência de Justiça. Sabemos que muitas vezes as autoridades se escudam nas "dificuldades de provar determinado acto". E nestes casos, qual é a desculpa para não haver correctivos ou ordens de prisão?