E pronto, o Papa já veio e foi, e correu tudo bem. Correu bem a Bento XVI porque ouvi muita gente a elogiar-lhe uma inesperada simpatia. Todos sabemos que João Paulo II tinha um capital emotivo entre os portugueses de difícil superação. Bento XVI terá certamente estudado bem a lição da pose, sabendo que se deslocava a um país onde o antecessor deixou grandes saudades. Esforçou-se por sorrir, por acenar, optou por discursos simples, directos ao coração da fé, e não arrazoados genéricos em que poderia facilmente cair em tentação intelectual.
2- Por falar nisso, a visita também correu bem às dezenas de intelectuais que foram aplaudir o Papa ao Centro Cultural de Belém. A muitos deles já ouvi os mais expressivos desprezos pelo catolicismo e tudo o que ele encerra, o que não deixa de ser curioso. Mas está visto que ser visto é tentação forte, e nem o mais empedernido intelectual resiste, sendo que, curiosamente o intelectual português também tem muita aversão a holofotes e câmaras (vê-se…). Aquelas dúzias de intelectuais subitamente rendidos ao mensageiro de uma religião que desdenham fizeram-me lembrar os VIP no Estoril Open, que vão comer uns salgadinhos, procurar as objectivas para fingirem que foram apanhados pelos fotógrafos e não queriam, e feita a foto se vão embora, sem ver uma única partida, ou dela percebendo tanto como eu de lagares de azeite.
3- Também correu bem a visita do Papa ao Governo, que fez dela a metade de uma sanduíche que fez (ou poderia fazer) esquecer a crise: a outra metade foi a festa do Benfica. Repare que foi exactamente no dia em que ainda milhões estavam de ressaca com os festejos, véspera da chegada do Papa, que já entretinha os alinhamentos dos telejornais, que veio, tímido e sussurrado, o primeiro aviso de que vêm aí impostos como nunca. No dia seguinte, Sócrates teve até a ligeireza de dizer, satisfeito com notícias da economia, que teve pena de não ter comentado com Bento XVI que Portugal foi o país da zona Euro que mais cresceu no primeiro trimestre. Como estava orgulhoso, o primeiro-ministro, e como apareceu tão diferente, dois dias volvidos, a anunciar, pálido, a maior tempestade fiscal dos últimos anos. Aliás, tem piada como Sócrates considera a relevância das questões que lhe são colocadas: como eram boas notícias para a economia, sorriu aos jornalistas e considerou que era matéria que até deveria ter abordado com o Papa. Não é difícil calcular o cenário, se as notícias fossem más: "considero lamentável, senhores jornalistas, que me estejam a colocar perguntas sobre matérias que nada têm a ver com a visita de sua Eminência ao nosso país".
4- A ver vamos se corre bem o Mundial à selecção de Queiroz, constituída pelo grupo mais estranho de que há memória nas convocatórias. Entre uma maioria de consagrados óbvios, uma mão-cheia de jogadores tão imprevistos que muitos portugueses tiveram de perguntar "mas quem é este?" ao colega do lado.
Não vou ao ponto de achar que há ali marosca, como já ouvi insinuar, que Queiroz, como qualquer treinador actual, tem também um jogo de interesses com agentes que pretendem lançar ou relançar jogadores nas grandes montras. Mas causa espanto ver entre os nossos "eleitos" jogadores que não fizeram um único jogo no apuramento, que por acaso são os mesmos de quem não temos ouvido falar de grandes e soberbas exibições nos clubes onde jogam (o que também muito boa gente não sabe quais são).
Enfim…Costuma dizer-se que o mister é que sabe. Cá estaremos para ver.