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Sim, o respeitinho é muito bonito, mas do que andamos mesmo precisados é de pudor, mais ainda do que de moralidade. O pudor, a existir na classe política, por exemplo, faria com que não fôssemos confrontados pelos jornais com a despesa estapafúrdia que ainda aí anda. É por estas e por outras que revolta ouvir cada vez mais discursos que anunciam mais e mais impostos, mais e mais formas, imparáveis, de fazer o contribuinte pagar. E a despesa do Estado, senhores? Bom, isso ainda estamos a estudar. E, ainda assim, assumimos como despesas a cortar as inúmeras fundações, as consultorias que ninguém sabe bem para que contribuem, os estudos e as já famosas parcerias público-privadas, que, levantada a pontinha do véu, se vê serem ruinosas na maior parte dos casos. E andávamos nisto quando surgem, debaixo do tapete, as dimensões das pensões vitalícias e os inqualificáveis subsídios de alojamento. Comecemos por estes: trata-se de uma verba destinada a ajudar quem, por causa da sua carreira política de “servir a Nação”, se vê obrigado a morar em Lisboa e a deixar a terrinha onde tem a casinha. Acontece que, ainda que originariamente muitos deputados sejam de Viseu, Lamego, Porto ou Tavira, muitos dos que já têm carreira consolidada no partido e mais tarde num Governo, já moram em Lisboa, onde assentaram arraiais há uns anos. Subsídio então porquê, se esse dinheiro não é necessariamente para pagar o aluguer de uma casita ou a estada num hotel? Parece o que é: moralmente indefensável em qualquer circunstância, quanto mais num cenário de crise aguda. Veio agora o ministro da Administração Interna, mais outro governante, dizer que abdica dessa verba, porque não quer “contribuir mais para polémicas”. Faz questão de acrescentar que à luz da Lei não seria obrigado a fazê-lo, mas que até o faz de livre iniciativa, para que lhe louvemos, certamente, o gesto altruísta. Ora há um pormenor que continua a fazer toda a diferença na vida política em geral, e que todos anotamos: se não fossem algumas “polémicas”, que é como quem diz, a coisa vir escarrapachada nos jornais e ser comentada pela opinião pública, talvez não tivéssemos gestos tão nobres por livre iniciativa. Imaginemos o seguinte cenário: você e eu, e quase todos os portugueses, nem sequer ouvimos falar deste subsídio, pela simples razão de não haver eco disto na comunicação social. Imaginamos os políticos que dele beneficiam a fazerem uma introspecção de mote próprio, olharem para os sacrifícios que são pedidos a toda a gente e dirigirem-se, sem empurrões de polémicas, ao primeiro-ministro, dizendo que estiveram a pensar como podem contribuir para atenuar as avultadas despesas e que entregam, prescindem, dessa verba que alguém um dia colocou na lei? Humm… também não me parece. A mesmíssima coisa com as pensões vitalícias para quem serviu “a causa pública” um dia, ainda que nesse rol constem nomes como Dias Loureiro, cuja responsabilidade no incrível caso BPN continua por esclarecer, mas a quem o Estado paga, religiosamente, uma mensalidade. E basta olhar para a lista de quem beneficia com esta pensão para pensarmos se, de facto, algum deles ou delas necessita, de forma imprescindível, dessa quantia para viver ou fazer face às contas que cada família enfrenta ao fim do mês? Mas viu-se algum ou alguma tomar a iniciativa de, também neste caso, colocar à disposição do Estado essa quantia? Alguém abdica, por sua livre e espontânea vontade? É pena, mas absolutamente previsível. Mas faz ainda mais aflição se pensarmos que seria uma óptima ocasião para continuar a desempenhar as funções e a missão que lhes valeram essa pensão: servir os portugueses. Aquilo que escolheram fazer (para quem acredita) quando integraram listas que vão a eleições. Servir a causa pública não seria, em tempos em que nos carregam cada vez mais em cima, sem pudores ou moralismos, contribuir para aliviar o fardo do Estado? Mas há sempre valores (literalmente) que falam mais alto. E depois ainda temos de ouvir políticos ofendidos: como pode haver pessoas que julgam que seguiram essa carreira para fazerem pela vidinha e não para nos liderar, a todos, como sociedade, em direcção a um futuro melhor? Quando surgir o primeiro ex-político ou ex-governante na miséria, depois de uma vida inteira a servir o País, serei dos primeiros a aplaudir a pensão vitalícia que lhe devemos. Mas é isso que vemos? Ou cargos muito acima do que tinham quando primeiro entraram no mundo dos partidos?

Nota: Por vontade do autor, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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