
Eu compreendo Pedro Passos Coelho, mas acho que Passos Coelho não entende bem o país que governa. Compreendo a tentação de avançar, perante os microfones da comunicação social, com a abolição da tradicional festarola de terça-feira de Carnaval. Não há cá tolerância de ponto, que o País não aguenta mais folgas e temos de produzir. Mais do que produzir, interessava a Passos Coelho a política do exemplo. Que tratou logo de explicar: os portugueses entenderiam mal que nesta altura, sobretudo depois da abolição de quatro feriados mais à séria, o Governo desse carta branca para mais uma folga. Assim sendo, o Governo entende terminar com o Carnaval. Coisa lógica, plausível e justificada. Mas pergunto-me se o primeiro-ministro antecipou o que, inevitavelmente, se seguiu. Um atrás do outro, os autarcas das localidades mais carnavalescas foram anunciando que ouviram o senhor primeiro-ministro, sim senhor, mas que não têm a mínima intenção de obedecer. Surpresa zero. Ironia sem grande solução, que deve fazer reflectir os políticos antes das grandes tiradas morais. O que diz faz sentido, mas não se vai verificar. O que só pode ter um resultado: o descrédito do chefe. Até porque em nenhum momento, tratando-se de um feriado que não é oficial, poderia Passos Coelho anunciar uma mão cheia e pesada para os prevaricadores. Ou seja, todo o País ouviu o chefe anunciar uma coisa, todo o País sorriu e assobiou para o lado. Dilema político, que em qualquer dos casos coloca Passos Coelho no terreno pesaroso da ingenuidade: ou não previu que seria desobedecido, o que é estranho, ou sabia que assim seria, mas achou por bem fazer as declarações, o que é perigoso. O resultado é penoso. Metade do País continuou a organizar os seus cortejos alegremente, a outra metade tratou de meter as folgas que sempre mete, as pontes que sempre fez (não me diga que não reparou como as cidades estiveram menos congestionadas nestes dias…). Um líder que tem os subordinados a marimbarem-se com uma gargalhada deve reflectir antes de voltar a medidas politicamente correctas, mas também politicamente arriscadas. Como se não bastasse, Passos Coelho teve de ficar a observar como se transformou, literalmente, no bombo da festa. Sim, porque a “festa” do carnaval portuguesa nunca foi uma explosão de alegria e energia, mas um desfile de acidez e de “mensagem” política. Já se sabe que vêm lá as carantonhas do primeiro-ministro (seja quem for na altura) a meter a mão no bolso do Zé-Povinho, lá vem os bonecos dos “banqueiros” (o diabo do capitalismo), de charuto na boca desfigurada, a rir-se da miséria “dos que trabalham”. Este ano, ainda por cima, o pagode tem o bónus da troika, mais os incontáveis trocadilhos (troika-troika). A lição que o primeiro-ministro deve tirar é que, em vez de ser Carnaval e ninguém levar a mal, quando se trata de tirar folgas ao pessoal ninguém o leva a sério. Está visto que teremos os penosos “espectáculos” do costume: os cabeçudos, a “sátira política”, as jovens, cheiinhas, pálidas e enregeladas, a trocarem os pés no que pensam ser uma espécie de samba. E, acima de tudo, as inenarráveis matrafonas, essa espécie tão lusitana, que assoma das cavernas onde se esconde o resto do ano, essas centenas de homens que se vestem de mulheres, misturando bigodes com batom, pernas peludas com lingerie, num desfile de horror boçal que nunca conseguirei compreender. E se calados já é mau, torna-se ainda pior quando respondem à pergunta do jornalista: então porque é que se veste de mulher no Carnaval? Não sei se fala por todos, mas a matrafona a quem ouvi perguntarem isto não tinha dúvidas: ora, porque qualquer homem gosta de se vestir de mulher, e ao menos nestes dias não temos de ter vergonha de o fazer…Ouvi bem? E é para isto que o povo quer o tradicional feriado. Para a “folia” (bailarinas tristes como a noite), para a sátira (e o povo que assiste nem esboça um sorriso). Os anos passam e os portugueses continuam a chamar Carnaval a isto. Os anos passam e as imagens que vemos são cada vez mais medíocres. Mas ai do primeiro-ministro que lhes tire o direito de fazerem estas figuras.