Durante dias falou-se, em todo o lado e a toda a hora, do legado de Mário Soares. Agora, eu acrescentaria questões sobre o legado dos dias das suas exéquias. E é curioso que Soares dividiu tantas opiniões, que até o balanço dos dias em que a sua morte foi notícia permanente tem duas faces bem distintas, e ambas procuram escudar-se em factos. Ora, os factos, como se aprende cedo na advocacia e no jornalismo, têm muito que se lhes diga.
O primeiro, que de alguma forma me choca mas não me surpreende muito, foi a estafada contagem de cabeças. Houve quem olhasse para o desfile da sua morte como quem olha um comício: quantas cabeças se contavam? Daí que, depois de discutirem dias a fio sobre o carácter de Soares, milhares de pessoas desataram a discordar em mais um ponto. Uns, emocionados, referiam um enorme banho de multidão em homenagem, outros concentravam-se nas abertas, ruas quase vazias e indiferentes. Não serei eu a desempatar. Acho, curiosamente, que vi um pouco de ambas as opiniões. Quando vi emoção, era funda e sentida, quando via encolher de ombros à passagem era indiferença igualmente verdadeira. É preciso entender que um homem que viveu 92 anos não tenha marcado as mais novíssimas gerações, para quem ele já se havia transformado, se calhar, numa personagem distante dos livros de História. Mas a morte e funeral de Soares, por durarem alguns dias, deram tempo para que uma das mais antigas feridas do País ressuscitasse, com força inaudita, uma força que só demonstra, aliás, o tamanho das experiências traumáticas por que passaram os portugueses que viviam nas antigas colónias nos anos 70. Este foi, sem dúvida, o dínamo maior das discussões azedas e agressivas, não tanto o esgrimir sobre um outro erro de Soares sobre a esquerda, a direita, as alianças, e tudo o mais que alimenta o lado mais corriqueiro da política. Não, o ranger de dentes veio de África, dos que lá viviam e de repente perceberam que já não, e toda a sua vida, toda, foi atravessada por um incurável ódio a Soares. Eu, que não passei por isso, como por outros momentos dramáticos, não consigo simplesmente condenar estas pessoas, ou alguns excessos de linguagem. Tenho de respeitar uma dor que não sei como se sente. Neste sentido, são pessoas que para mim têm “razão”, seja isso o que for neste contexto. Mas percebo também, muito bem e mais claramente, os que recordam constantemente que, se estamos todos aqui envolvidos em polémicas, gritadas bem alto sem medo de represálias, muito o devemos a Mário Soares.
A liberdade é, continua a ser, absolutamente inestimável, e o bem mais precioso do planeta: basta perguntarem a quem não a tem. E assim, Soares partiu como viveu, a provocar discussões que, se não fossem tão agressivas e nascidas de experiências traumáticas, poderiam ser encaradas como acontecimento benfazejo, isto de podermos trocar pontos de vista sem que ninguém nos prenda. As personalidades muito grandes demoram a deixar legado, e o que realmente deixam só se consegue perceber muito tempo depois do seu desaparecimento. Ainda é muito cedo, as emoções estão muito frescas e tensas.