Viver num país brando, nos costumes e outras coisinhas, é bom ou mau? Uma pergunta tão portuguesa merece resposta igualmente lusitana: bom, isso depende, isso tem dias, isso é conforme. Mas para ser ainda mais português, falemos do tempo. O nosso é maravilhoso, elogiado por qualquer turista que cá venha, mas também o tempo nos dá, naturalmente e à portuguesa, a nossa razão de queixa. Temos um ótimo verão e um dos invernos mais amenos do mundo, mas para nós está sempre muito calor, não se pode estar em sítio nenhum, ai que abafado, ou tiritamos de frio com temperaturas que fazem os turistas andar de manga curta e sandálias no Rossio. O nosso clima, sejamos sinceros, não tem amplitudes dramáticas. Não temos do que nos queixar, muito pelo contrário. Mas somos portugueses. Ou seja, à falta de razão para queixas, inventamos uma, qual menino mimado que não tem problemas na vida mas anseia ser como os outros, os realmente sofredores. Prevejo (qual meteorologista) que lá para o verão havemos de nos debruçar sobre uma qualquer tórrida frente quente, que faz suar o País. Por agora, em meados de Fevereiro, estamos naquela altura do ano a que antigamente se chamava Inverno, mas que hoje atinge com espanto grande parte da comunicação social. Se os meteorologistas dizem que o tempo vai piorar, e que se segue um comboio de alertas de várias cores, amarelo, laranja, vermelho, segue-se um estado de ansiedade tal que mais parece vir aí não uma tempestade algo severa mas os próprios Cavaleiros do Apocalipse. E o que se viu, felizmente, e como quase sempre? Uns ventos, umas ondas gigantes, umas inundações (o Inverno, lembram-se?). Nada, quer-me parecer, que justificasse tanto temor ou excitação. Há, depois, nesta chamada Era Moderna, um pormenor que pode causar confusão na cabeça da chamada opinião pública. Se bem se recorda, há já alguns anos, as televisões começaram a apelar a uma maior interacção do espectador. Nasceu, por exemplo, de um tranquilo e pacífico apelo a que enviem para as televisões retratos das férias. No mundo global, apareceu como uma forma de as televisões apanharem o comboio da tendência rede social. Neste campo, repito, é pacífico, surgirão melhores ou piores momentos, mas vê quem quer. Já deverá parecer um pouco estranho que o mesmíssimo conceito se aplique a potencial perigo. Daí que se assista a um certo fio cruzado em curto-circuito quando se vê e ouve a comunicação social dar voz a senhores muito responsáveis das autoridades, que dão os seus conselhos muito respeitáveis, dos quais se destacam “não se aproxime dos vagalhões na praia”, mas a mesmíssima comunicação social convida os anónimos cidadãos a enviarem retratos do mau tempo. Ou muito me engano, ou muitos dos que se colocaram demasiado perto do perigo pretendiam enviar o seu retrato para as redes sociais, ou jornais, ou televisões. Alguns, como sabemos, encontraram o pior dos destinos. Que, depois, a comunicação social relata, referindo que desapareceram uns quantos. Se calhar sou só eu que vejo qualquer coisa neste círculo.
Rodrigo Guedes de Carvalho: ‘Falemos então do tempo’
À falta de razão para queixas, inventamos uma, qual menino mimado que não tem problemas na vida.