Começo por aplaudir, com entusiasmo, uma iniciativa do Bloco de Esquerda. Goste-se ou não, é um partido que, desde a sua entrada no Parlamento que pode ser acusado de muita coisa, menos de procura de participação activa. Claro que houve, sobretudo no início, muito empenho em questões que a classe política então vigente, mais acomodada, sempre considerou “menores”, ou não prioritárias. Mas o Bloco, valha a verdade, entre tiros certeiros e alguns ao lado, procurou marcar a diferença, suscitar diferentes agendas, sensibilizar para assuntos que normalmente não têm honras de destaque nas notícias. Trata-se, afinal, do exercício maior a que pode aspirar um parlamentar: procurar dar voz a quem não tem poder. E assim chegamos a uma das suas últimas iniciativas a que, curiosamente ou talvez não, grande parte de comunicação social não deu o destaque que me parece devido. Trata-se de tentar penalizar com maior força de lei os que estacionam nos lugares para deficientes. Não sei o que parte da classe política mais antiga, conservadora e ufana pensará da iniciativa, mas parece-me daquelas que mostram uma louvável atenção ao mundo que nos rodeia. Porque esta situação, de abuso insultuoso dos lugares para deficientes, é daquelas que, estou certo, já todos presenciámos. O que o Bloco faz, afinal, é passar à acção perante essa indignação que muito teremos sentido, mas pouco (ou nada) fizemos. Parecendo problema “menor”, não o é: é uma situação que testa a solidariedade de um povo, a sua cidadania. É uma situação onde se reflecte, de forma clara, o respeito que os cidadãos demonstram uns pelos outros. Ou a falta dele, quase sempre. Sejamos claros: quem estaciona nos lugares reservados a deficientes sabe perfeitamente o que está a fazer. Muitos dirão que estacionam mas “é só um bocadinho”, que nunca é. Num país que tarda a modernizar-se nas facilidades concedidas a deficientes, como acessos (rampas) nos edifícios, sobretudo os públicos, os lugares de estacionamento são das poucas marcas de modernidade sensível e civilizada. Mas mesmo essas excepções são vandalizadas a cada instante. Cada caso será um caso, naturalmente, mas reforço esta ideia triste: quem o faz sabe o que faz, o que significa que tem estômago para deliberadamente agredir os direitos mais básicos de quem sofreu um sério revés na vida, quase sempre permanente, eterno. E fá-lo, normalmente, com a mais estúpida e comodista das justificações. Porque aquele lugar fica mais perto da porta onde se quer entrar. Mas milhares e milhares de portugueses conseguem concentrar-se nesta vantagem, com o que ela agride os direitos de incapacitados, do que estacionar uns metros mais longe e caminhar. É gente que esquece, de forma desumana, a bênção de poder… caminhar. O problema é sempre o mesmo. A maioria das pessoas só aprende quando passa pelas situações. Acredito que os que têm o descaramento de fazer isto não tenham deficientes na família. Isto não explica, ou desculpa. Só agrava, em minha opinião. Porque demonstra a que ponto vai a insensibilidade com os outros.
Rodrigo Guedes de Carvalho: Parabéns ao Bloco
Penalizar com maior força de lei os que estacionam no lugar dos deficientes é a última iniciativa do Bloco de Esquerda.