No dia em que se juntou a Filipe La Féria e todo o elenco para apresentar “A Volta ao Mundo em 80 Minutos”, peça que estreou no dia 26 de maio no Casino Estoril, João Baião aceitou conversar com a TvMais e falar um pouco sobre a sua vida e carreira. Antes disso, chorou ao ouvir as palavras do encenador com quem volta, com grande prazer, a trabalhar. De João Baião dizem que é, acima de tudo, boa pessoa, um amigo incomparável, um profissional como poucos e um colega generoso. Ele comove-se com o que vai ouvindo sobre si, absorvendo todos os elogios e sentimentos à sua volta com a inocência de quem começou agora a viver. Mas já lá vão 53 anos de vida e muitos outros de uma carreira, como ator e apresentador, que tem conquistado os portugueses.
O que sentiu quando estava a ouvir o Filipe falar de si?
É estranho, porque é o reconhecimento da pessoa que sou, que nunca fiz para ser assim. Sou assim naturalmente. E quando falam de nós com este carinho, com esta sinceridade… isso emociona-me sempre.
Como está a ser este reencontro?
Estava com um bocado de receio, porque, com o passar dos anos, achamos que não somos capazes de conseguir acompanhar, porque muita coisa evoluiu, o próprio Filipe La Féria evoluiu, apareceu muita gente jovem… Mas estamos em sintonia e é maravilhoso poder pisar este palco, que para mim é uma estreia, que foi pisado por grandes estrelas internacionais. Para além de ser uma responsabilidade, é também um orgulho muito grande e um privilégio.
Imagina o seu percurso sem o Filipe na sua vida?
Nunca fiz esse exercício, porque as coisas aconteceram assim. E ainda bem, porque o Filipe La Féria foi preponderante no meu percurso, em determinada altura, quando eu estava, como ele explicou, a fazer um espetáculo da minha autoria de café-concerto, e ele apareceu com a Teresa Guilherme porque estavam à procura de gente para fazer “Maldita Cocaína”. Acabámos por fazer primeiro a “Grande Noite”. Já conhecia algum trabalho dele antes e, obviamente, que para um menino que sonha viver no mundo do espetáculo, ter o privilégio de ter o Filipe La Féria para assistir a um espetáculo e depois falar com ele… E ter a oportunidade de ao fim destes anos todos, mais de 20, ainda ter a capacidade e a energia para voltar a trabalhar com ele é maravilhoso.
Que balanço faz, neste momento, do seu percurso profissional?
É muito positivo! Já viram que estamos a comemorar os 25 anos da SIC e que as pessoas ainda falam muito do “Big Show SIC”? Foi um programa que marcou muito a televisão portuguesa e falam-me dele como se ainda estivesse no ar. Isto é um privilégio! E ter feito um programa também com uma equipa que na altura procurava alguém. Foi o Ediberto Lima que me convidou. Comparo-os muito, o Ediberto com o Filipe La Féria, porque apostaram em mim num determinado período para uma coisa sobre a qual nem propriamente eles sabiam o que ia acontecer. Caminhámos juntos neste mesmo percurso, as coisas foram acontecendo naturalmente e criaram uma grandiosidade que nem nós próprios estávamos à espera. Portanto, tudo isto é maravilhoso. Tenho o maior orgulho de tudo o que tenho feito neste meu caminho.
Essa sua energia é contagiante…
Sou sempre assim! Obviamente que, com a idade, às vezes já procuro o silêncio, estar sozinho. Mas mesmo quando estou quieto e sossegado, estou sempre agitado e inquieto. Mas no bom sentido. Nunca isto me trouxe algum problema.
E é assim desde criança?
Desde sempre. Só reparei que era assim quando as pessoas começaram a falar disso, a comentar a minha energia e a dizer: Tu não paras?. Nunca fiz nada para ser assim. Sou-o naturalmente. E as pessoas ainda me perguntam: como é que tu não te cansas? E, de facto, eu próprio chego a fazer essa autoanálise e às vezes só me canso mais da voz, mas fisicamente… não consigo perceber!
Esse ritmo é muito bom em trabalhos em que há mais contacto direto com o público. Continua a ter prazer em fazer esse género de programas?
Sim, muito. Gosto mesmo muito de estar com as pessoas. É outro registo, mas sinto–me bem no meio do público. Estou muito habituado e se calhar foi uma forma que arranjei de me proteger desta insegurança de subir a um palco, escudando-me no meio do público. Gosto muito do contacto, do toque, do abraço, do beijo. Os meus colegas dizem que estou sempre a beijar toda a gente. E é verdade.
Ainda fica nervoso antes de subir a um palco?
Sim. Muito. Constantemente. Quando não se espera nada, uma pessoa entrega-se mas tem sempre a novidade da inexperiência. Quando já se tem alguma experiência… não queremos desiludir. Por isso, estamos sempre com medo de desiludir as pessoas que apostam em nós, neste caso o Filipe La Féria, e o público, que é a entidade mais importante do meu trabalho, e não quero nunca defraudar as expectativas que têm. Por isso estou sempre inquieto e insatisfeito.

Em criança já sabia que esta ia ser a sua vida?
Em criança queria ser muita coisa, mas já nessa altura vivia deslumbrado com o mundo do espetáculo. Via os festivais da canção e depois, com a minha irmã, transportava isso para os quintais, com os colegas da escola organizava grupos de teatro, fazia concursos de misses, porque via na televisão. Aproveitava os meus tempos livres para inventar um palco e um espetáculo. Mas depois pratiquei ginástica desportiva e o meu sonho era ir aos Jogos Olímpicos, joguei futebol… Quando comecei a trabalhar, para ajudar os meus pais, tinha oportunidade de continuar a estudar à noite, mas isso implicava deixar de fazer teatro. E não podia fazer isso.
Quando houve essa necessidade de ter de ajudar, sentiu que os seus sonhos podiam ser colocados em causa?
Não, porque vivi uma infância e uma adolescência muito felizes. Na altura, não tinha o conhecimento que havia o Conservatório, que podia estudar teatro, e nunca foi aquilo do “quero ser ator”. Vivia deslumbrado com a televisão, com o espetáculo, com a arte, e fui sempre fazendo e inventando. Nunca com aquele objetivo de querer chegar à televisão. As coisas foram acontecendo naturalmente.
E teve sempre o apoio familiar para seguir esse caminho?
Sempre! O meu irmão, a minha irmã, os meus pais… tive sempre o apoio deles. E acompanhavam muito, porque os meus pais também se conheceram no meio. A minha mãe fez teatro, o meu pai estudou canto e integrou o coro da Gulbenkian. Eles sabiam e apoiaram-me sempre muito.
Se o convidassem para regressar com o “Big Show SIC”, acha que ainda tinha “pedalada”?
“Pedalada” tinha, com certeza, não sei é se iria ter o mesmo impacto, porque entretanto isto mudou muito. Tinha de ser um “Big Show SIC” do século XXI, mas energia ainda tinha, claro.
Sentiu algum preconceito por apresentar esse programa?
Sim, muito. Na altura, foi um programa muito preconceituoso e complexado. Muitos dos colegas criticaram coisas que hoje estão a fazer…
E a adaptação aos programas da manhã e da tarde?
Foi normal, porque nós não somos só uma coisa. Uma vez, estava a fazer o “Big Show SIC” e fui fazer um espetáculo de comédia com o Diogo Infante, o Ricardo Carriço, a Fernanda Lapa, a Cristina Carvalhal, a Maria Henrique. Ainda existia o semanário “Se7e” e a Maria João Rolo Duarte escreveu uma crítica que dizia: “Queria ir ver este espetáculo, mas estou um bocadinho relutante porque está ali aquele rapaz do Big Show SIC. Mas, afinal, fui e de facto é um João Baião que não tem nada a ver com o programa”. Isso é o melhor prémio e a melhor crítica que se pode fazer a um trabalho, porque nós não somos só assim, só desta ou daquela maneira.
Outro dos grandes prémios que tem ganho ao longo deste tempo é o carinho dos colegas. Qual é o truque para conseguir parcerias tão fortes?
Não há truques! Quando queremos fazer truques não chegamos lá. As coisas nunca foram programadas, elas são naturais. E o público sente isso.
E as qualidades que esses colegas lhe atribuem, o facto de ser muito
generoso e genuíno, é isso que faz com que depois, mesmo fora do ecrã, as parcerias resultem?
Não sei… Tentei sempre entregar-me às coisas de forma natural e espontânea. Depois, começando a perceber como isto tudo funciona, não dou sequer confiança para que exista algum tipo de jogos e coisinhas.
Entrega-se às pessoas da mesma forma como faz com o trabalho?
Sempre! Às vezes é complicado. Tenho tido a sorte e a felicidade de ter trabalhado sempre em sítios com bom ambiente, porque não suporto quezílias e joguinhos de má-fé. Não consigo. Há espaço para todos e cada um tem a sua própria estrela e o seu próprio brilho. Não é suposto espezinhar alguém. E nessas alturas não consigo fingir e afasto-me.
É capaz de apontar a sua maior qualidade e o seu maior defeito?
É difícil… Isso deixo para os outros responderem.
É um homem vaidoso?
Q.b., tenho alguma vaidade, alguns cuidados com a imagem e com a minha aparência. Procuro ter cuidado com a alimentação, fazer exercício físico. Gosto muito de doces e não como muitos, adoro comer pipocas no cinema mas não exagero…
E envelhecer? É algo que o assusta?
Assusta se não tiver saúde. Custa-me pensar em perder as faculdades físicas e mentais, isso é uma coisa que me assusta imenso. Mas de resto, a velhice é boa.
Considera-se um homem completo e feliz?
Sinto-me muito feliz, em ótima forma. Não penso muito nas coisas que podia ter feito e não fiz. Acho que tomei as opções certas, tenho amigos extraordinários, uma família ótima, tenho feito coisas que me têm dado muito prazer e tenho aprendido imenso com muitas pessoas. E por isso é que, quando oiço palavras como aquelas que o Filipe me disse, acho que tem valido a pena. Tem corrido tudo bem. Mesmo esta oportunidade de, aos 50 anos, ter voltado à SIC, ter sentido que as pessoas ainda gostam de mim e de me ter ao seu lado nos programas, é maravilhoso.
O que gostava de fazer a seguir?
Sempre disse que gostaria muito de poder continuar a fazer teatro e televisão ao mesmo tempo. E este convite veio na altura certa. São meses intensos, mas são ótimos. Prefiro assim. Gostava de fazer ainda tanta coisa…
Tem algum medo?
Da doença. Quer seja chavão ou não, a saúde é mesmo o mais importante. Não há nada a fazer. O resto não interessa nada.
Quais são as suas maiores paixões?
É a própria vida, porque ela depois tem tanta coisa! Tem viagens, amigos, cinema, teatro… A minha maior paixão é mesmo a vida, gosto de saborear as coisas. Vivo tudo com muita intensidade…
Consegue sempre afastar o pensamento de que um dia não terá a sua mãe ao seu lado?
Consigo. Esse é um pensamento que me acompanha desde a adolescência e é uma coisa que me magoa, porque, ainda por cima, há sete anos perdi o meu pai, que também era um pilar, e nós nunca estamos preparados para a perda, principalmente de pessoas tão importantes para nós. Essa é a parte que mais me custa da vida. Mesmo quando as pessoas me dizem que estará sempre no meu coração. Estará, mas o contacto físico é muito importante para mim, e saber que aquela pessoa não vai mais estar aqui é uma coisa que me dói imenso. A morte custa-me muito a aceitar por esse aspeto, por deixar de ver a pessoa, de ouvi-la…
Essa sua preocupação com a doença também terá a ver com o seu pai…
Sim, claro. Foi sempre um homem saudável e depois… custa muito.
Dá muita ou pouca importância às críticas que lhe fazem?
Hoje em dia dou muito pouca. Dou importância às críticas construtivas e saudáveis. Agora, às gratuitas e que vêm mesmo só para deitar a baixo? Já não dou!
Apaixona-se com facilidade?
Sim. E apaixonar-me tem a ver com muita coisa…
Neste momento está apaixonado?
Estou sempre apaixonado. Tenho sempre um motivo de euforia por qualquer coisa.
E de forma romântica?
Essa é a minha parte privada, que sempre preservei. É muito importante.
O desejo de ser pai continua a manter-se? Ainda pensa nisso?
Tem fases. Às vezes apetece-me… Quando refletimos sobre a morte dos nossos pais, dos nosso pilares, pensamos que quando há a perspetiva da continuação da sua vida através dos filhos a dor parece que se atenua, há o prolongamento. Mas quando se perde o passado e não se vê o legado, se calhar custa mais. E às vezes penso muito nisso. Mas nunca forcei nada na minha vida, deixei sempre que as coisas acontecessem de forma natural. Depois penso que se calhar não tinha tempo ou estrutura para conseguir, sei lá… É que sofro muito. Quando vivia em casa dos meus pais e o meu irmão e a minha cunhada tiveram a minha sobrinha vivia sufocado e de minuto a minuto ia ver se ela estava bem ou se estava a sofrer.
Há alguma coisa que não perdoe?
A arrogância, a injustiça e a ingratidão.
E o silêncio? Já lida bem com ele?
Sim, muito bem. Agora, às vezes, é no silêncio que estudo as minhas coisas e preparo os programas. Estes dois dias que não tivemos espetáculo, fui ao cinema e ao teatro, mas tive de, ao chegar a casa e no silêncio, rever tudo aquilo de trabalho que fizemos até agora. É importante.
É nessas alturas que pára?
É. Às vezes tenho alguma dificuldade em parar, em ficar ali quietinho, mas tem de ser.