
1. Os anos passam e ninguém consegue explicar o mistério: Alberto João Jardim comporta-se como quem não receia nada nem ninguém, sendo que se comporta em ritmo de provocação constante e crescente. E fá-lo, sempre, com absoluta desproporcionalidade. Entenda-se por isto responder com saraivada de metralhadora a uma ou outra pedrada que considera ter-lhe sido dirigida. Nos últimos tempos, valha a verdade, até tinha havido uma certa calmaria. O arqui-inimigo Sócrates foi corrido do poder, tomado entretanto por cor diferente, e como a cor agrada, Alberto João andou remetido a relativo silêncio, incapaz de continuar a tonitruante crítica imparável aos “caciques do continente”. Nem se lhe ouviu, que me recorde, muita palavra sobre o acordo em Lisboa que o seu partido se viu “obrigado” a rubricar com o CDS, para garantir passagens confortáveis de leis na Assembleia. Mas eis que Paulo Portas visita a Madeira, e logo em vésperas do sempre aguardado “festival” do Chão da Lagoa. E Portas não só visita a Madeira, como aproveita para deixar bem claro que há diferença substancial entre a ilha e o continente, no que diz respeito a políticas de aliança com o PSD. Por outras palavras, no continente sim, na Madeira nem pensar; o CDS quer trocar as voltas às sucessivas maiorias absolutas de Jardim. Foi mais do que suficiente para voltar a “soltar a fera” Alberto João. Mas se já se esperava resposta discordante, quiçá indignada, penso que mesmo os mais habituados não deixaram de se espantar ou chocar com o nível a que coisa chegou. Foi de fariseus para baixo, apelos a que o CDS seja expulso do templo, insultos dos mais variados. Perante tamanha indignação, é natural que os jornalistas perguntem depois a Alberto João sobre a troca de argumentos. Mas o seu estilo é o de alternar uma coragem avassaladora com recuos irónicos que sabem a fraqueza. Depois de dizer tudo e mais alguma coisa de Portas, Jardim diz aos jornalistas que não fala “sobre pessoas que não conhece”. E para rematar um dia bem ao seu estilo, sabendo que está a ser filmado dentro de uma camioneta, de copo na mão, vira-se ostensivamente para a câmara que o tem na mira e mostra-lhe (ou seja, mostra-nos)…o dedo do meio. Há décadas que Jardim diz o que lhe apetece, da forma que lhe apetece. Há décadas que diz cada vez mais e pior, de forma mais insultuosa, numa provocação óbvia que parece dizer “ e então? Alguém me vai tentar impedir?” O PSD vai assobiando porque ele ganha eleições. Mas Jardim deixou uma promessa-ameaça que será interessante de seguir. Garante que abandona a política se o povo madeirense não lhe der mais uma inequívoca maioria absoluta. Que pensará disto o actual PSD? Dizem-me que já há muito boa gente que prefere deixar de ter a maioria absoluta na ilha, se isso significar, de facto, o fim de sucessivos e esperados embaraços. Mas se assim é, significa isso que as atitudes de Jardim não são muito bem vistas dentro do seu próprio partido. Mas a verdade é que os líderes mudam e ele continua. O PSD lá sabe porquê.
2. Dizem-me as revistas da especialidade que a namorada de Angélico tem sido muito requisitada a fazer “presenças” em discotecas desde a fatídica hora. Que os convites são tantos que a rapariga até aproveitou para subir o cachê, e fazer-se mais cara. Chama-se a isto aproveitar a onda. Era esperado? Era. Mas continua a ser lamentável. Por mais estimado que o rapaz fosse (e faz-me impressão a verdadeira dor da família), o tempo se encarregará de demonstrar que deixou em terra uma oportunidade para muita gente. Gente que se mostrou às câmaras a chorar, já a pensar quanto é que esse choro vai valer. Como dizia o outro, a morte deixa um rasto de dor insuportável em quem fica por cá. Mas a grande conclusão, que a vida vai multiplicando em exemplos, é que pouca gente tem a dignidade de não desatar logo a pensar mais em si do que em quem partiu.
Nota: Por vontade do autor, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico