1. Confesso que me ultrapassa a magnitude da questão dos feriados no “combate à crise”. E não entendo sob qualquer dos dois pontos de vista que me apresentam. Não entendo porque continuam os patrões e o Governo a vender-me que é assim que se resolve o famoso problema da produtividade; como não entendo as lamúrias dos trabalhadores, que deitam as mãos à cabeça porque ficam sem a bendita folguinha. Comecemos então por aqui. Basta olhar para um calendário português para perceber que está cheiinho de feriados, entre comemorações laicas e imperativos histórico-religiosos. E basta perceber que são tantos e tão variados, que dois ou três ou quatro por ano hão-de colar ou aproximar-se dos fins-de–semana: e está construída a “ponte”, uma das palavras preferidas dos trabalhadores portugueses. É sintomático e muito explicativo da nossa condição que grande parte dos trabalhadores passe o ano a suspirar por elas e a fazer má cara a todos os dias que não são feriado, ou seja, em que têm de trabalhar, o que, convém lembrar, é o que lhes paga as contas ao fim do mês. A matéria é-me particularmente difícil de compreender depois de mais de 25 anos a trabalhar num ofício que não pára um único dia, seja útil ou não. Mas, sendo certo que muito trabalhador devia era estar calado, o mesmo se aplica ao patronato. Porque é também muito difícil de engolir o discurso da “produtividade”, como se ela nascesse simplesmente de mais horas de trabalho e da subtracção de lazer dos funcionários. E pela mais simples das razões: a produtividade à portuguesa está longe de ser um problema quantitativo: sempre teve a ver com a qualidade do trabalho que se faz durante um dia normal de serviço. Dito de outra forma, que me interessa a mim se determinado funcionário vem trabalhar porque já não há feriado, mas age como sempre, de má vontade, a ver se faz o mínimo possível, a olhar para o relógio à espera do toque de saída? Que adianta isso à produtividade da minha empresa, que ganha o País com isso? Mas aqui, precisamente, entramos numa espécie de ovo e galinha, que é a magna questão de saber porque há tanto e tanto funcionário assim no país. Será porque somos intrinsecamente preguiçosos e mal agradecidos, ou seja, maus trabalhadores… ou porque também uma grande maioria de patrões são simplesmente maus patrões? Que não incutem o mínimo entusiasmo nas suas tropas, que não sabem incentivar, criar bom ambiente, que não defendem os que para si trabalham, que não sabem criar numa empresa um ambiente de família? Na semana passada, o primeiro-ministro visitou uma empresa nacional que é um caso sério de sucesso, e a nível mundial: a BA, potência das embalagens de vidro. Na reportagem feita na ocasião, ouvi com atenção o depoimento de um dos responsáveis máximos, Jorge Alexandre, se não estou em erro. A pergunta seria a do costume, que segredos para o sucesso e bom ambiente, blá, blá, blá. No fundo, que segredo para a “produtividade”? E não, ele não referiu que o segredo é pôr a malta a trabalhar no feriado. Referiu, sim, a importância de ter os trabalhadores felizes, porque motivados. E deixou um recado aos seus iguais: “Acho que os patrões portugueses deveriam aprender a pedir menos aos trabalhadores e fazerem eles mais, começando desde logo por dar o exemplo”. Seja ele qual for. Depois de dizer que ouvi precisamente o que penso sobre o assunto, acho que não preciso de dizer mais nada.
2. E estou a escrever esta crónica quando me chega a notícia da morte de Bernardo Sassetti. O quê? Quando, mas como, o que aconteceu, mas estava doente? Chegam pouco depois os pormenores. Caiu de uma falésia, enquanto fotografava. Já o disse, todas as mortes me merecem respeito, mas dói no peito saber que tinha apenas 41 anos, uma ligação de grande paixão com a sua mulher e um talento do tamanho do mundo. Sim, do tamanho do mundo, já que Sassetti seria dos poucos músicos portugueses que o poderia ser onde quisesse. Do pouco que o conheci, percebi logo a inquietude constante, a procura de ir mais além, a insatisfação que mói sempre os que vivem dentro de uma torrente criativa. Aquelas almas que nasceram para deixar uma marca, que deixam o mundo diferente do que o encontraram. E mais um momento, acredito, para percebermos como são tão insignificantes os probleminhas com que às vezes nos angustiamos, quando a morte nos surge assim outra vez ao caminho, brutal e definitiva, a dizer-nos para gozarmos a vida, e não nos queixarmos por aí além.