
Anda por aí uma polémica, nascida de uma indignação de uma estação de televisão, que só não dá vontade de rir porque mexe com coisas sérias. É uma indignação que causa espanto, uma vez que pertence ao grupo óbvio do “estavas à espera de quê?”, ou ainda do mais claro “mas qual é a tua surpresa?” Falo do género de espanto que pode tomar conta de nós quando ouvimos uma galinha cacarejar, ou quando reparamos, surpreendidos, que o cão desatou a correr atrás do gato. Vamos então situar-nos: nos últimos anos, as televisões fizeram apostas sérias em comentadores desportivos. De início, eram os históricos, gente declaradamente ligada aos clubes, em que exerceu ou exercia ainda funções de dirigente. Ou então antigos futebolistas, todos eles conhecidos por terem envergado esta ou aquela camisola. O chamado comentário de cartas na mesa, nada a esconder. Pouco depois, com a multiplicação de canais, sobretudo no cabo, de programas gémeos uns dos outros, não houve outro remédio que não começar a recorrer à gracinha de convidar para o “painel” figuras públicas, não necessariamente ligadas ao futebol, mas precisamente por serem artistas de outras áreas que vibram com o futebol, gostam de discutir a bola e, sobretudo, são adeptos confessos deste ou daquele clube. E este é o ponto importante a não perder de vista à medida que a crónica avança. Sim, adeptos confessos, sempre foi essa a “graça”. Daí terem surgido como comentadores médicos famosos, advogados, cantores, realizadores, actores, escritores, políticos, empresários, e o mais que se possa pensar. Muito bem. E que fazia esta nova classe de comentadores “inesperados”? Precisamente o que fazem os comentadores profissionais. O meu clube jogou lindamente, foi roubado pelo árbitro, o adversário tem uma teia mafiosa montada para intimidar os homens do apito, todos os foras-de-jogo contra nós são mal assinalados, ficam normalmente três ou quatro penáltis por marcar a nosso favor, se não tivéssemos sido vergonhosamente prejudicados toda a época, éramos campeões a brincar, e por aí fora. É isto, e continua a ser isto. O futebol tem ainda e sempre de revelar a fera que habita num homem que sempre vimos como pacífico, de trazer à tona uma cegueira em gente que julgávamos ponderada e com capacidade para ouvir o outro. Mas, como diria o outro, tudo bem, são as regras que aceitámos para o jogo, e é óbvio que, hoje, quem se senta em frente à TV para assistir a estes programas de “debate” futebolístico está já a contar, com um sorriso de antecipação, com o facciosismo dos comentadores para lhe alegrar a noite. Tornou-se um espectáculo, e assim que se sabe que rebentou uma polémica entre dois clubes, o espectador tem a esperança de que o programa pegue fogo. Ora bem, aqui chegados e entendidos, espero eu, há que lançar a grande pergunta sobre o gesto “polémico” do comentador João Gobern, afastado dos ecrãs da RTP. Então não é que o incauto e malvado comentador festejou um golo do seu clube em pleno estúdio? Meu Deus, que surpresa terrível. É certo que João Gobern defende o Benfica nas situações mais impensáveis e insustentáveis, como qualquer outro “comentador” destes programas, mas cometeu o erro de esquecer que, de vez em quando, o mundo do futebol e da televisão que gravita em torno dele gosta de se armar em politicamente correcto. Não está aqui em causa a RTP, no sentido em que não ponho a mão no fogo para dizer que não aconteceria noutro canal. O que está em causa, de uma vez por todas, é perceber que sentido faz convidarem pessoas que vão, óbvia e naturalmente, defender o clube que todo o País sabe ser da seu coração, para depois as demitirem por levar “demasiado longe” as suas demonstrações de predilecção. E se este gesto de Gobern é levar demasiado longe, que dizer daquelas emissões (quase todas, aliás), em que só falta haver cenas de soco e cuspidela em estúdio entre homens engravatados e respeitados? É mais digno e aceitável mostrar em televisão revoadas de insultos e esgares de ódio trocados do que um punho cerrado no ar porque a nossa equipa marcou golo? Sobretudo, para o País que de vez em quando gosta de fingir “seriedade” no tem futebol, pergunto, mais uma vez? Qual é o espanto e onde está verdadeiramente o escândalo? Mas alguém que vê o programa não sabia que João Gobern é do Benfica? Tal como António-Pedro Vasconcelos? Ou que o conceituado advogado Rogério Alves é do Sporting? Ou o conhecido jornalista Miguel Sousa Tavares é do Porto? Não seria altura de assumir estes programas pelo que são? E não tentar passar a ideia de que se quer análises “objectivas”, expressão que não tem qualquer cabimento no mundo e na discussão sobre futebol?
Nota: por vontade do autor, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico