
1. Confesso: comecei por simpatizar com Vítor Gaspar. Achei refrescante o seu registo inédito, a calma extrema, o ar quase ausente e alheado, a contrastar com a seriedade e certeza do que dizia. A rigorosa enumeração de factos, a preocupação em que se entenda exactamente o que está a dizer, e de onde vem o raciocínio. Primeiro estranhámos, habituados que estávamos a conferências de imprensa mais atabalhoadas e menos organizadas. A primeira grande vitória de Gaspar perante os portugueses foi convencer-nos, a pouco e pouco, que ainda que se pudesse não ser da cor política do partido do Governo, aquele ministro era um homem sério, apostado em fazer bem o seu trabalho. E o tempo foi passando, como se diz nas histórias… Mas o tempo é, também, o grande juiz e conselheiro e, sobretudo, prova muita coisa, o que o ministro esqueceu. Hoje, podemos dizê-lo, o tempo demonstrou o pior em relação a um homem que consideramos sério. Mostrou que o ministro, afinal, parece não dominar bem o que está a fazer. E o que está a fazer é, simplesmente, ter o nosso destino nas mãos. Da primeira vez, ainda com todos os créditos, fomos levados a acreditar que a terrível austeridade que nos apresentava era absolutamente necessária, em nome de um bem maior, que seria começar a levar-nos para o princípio do fim da crise, fazer-nos acreditar que os nossos sacrifícios valeriam a pena, porque viria aí a luz ao fundo do túnel. E hoje? Hoje já se torna incompreensível, e mesmo inaceitável, que Vítor Gaspar vá somando conferências de imprensa em que nos anuncia, com o seu ar imperturbável, que afinal se enganou nas previsões, mediu mal os números, analisou mal as medidas, e que tem de voltar a pedir-nos mais sacrifícios, e mais e mais. A nossa pergunta torna-se, então, bastante simples: então mas os sacrifícios são para quê? Para continuarmos a fazê-los? O resultado da equação não é lisonjeiro para Gaspar, porque as medidas que vai anunciando de uma e outra vez mostram que a fórmula não resulta, mas o mais espantoso, para não utilizar outra palavra, é a pose inalterada com que nos aparece. Seria de esperar que um governante que tem errado tanto, falhado tanta expectativa, pudesse começar por nos pedir desculpa, ou de alguma forma pedir a nossa compreensão, ou admitir desde logo que se equivocou, mais uma vez. Gaspar não faz nada disto. Sorri, e começa a debitar medidas ainda mais duras que as anteriores. Esquece que a sua calma e educação não servirão de escudo contra tudo. Esquece que o momento pediria mais de habilidade e sensibilidade políticas do que frias análises de contas em papel quadriculado. Nem todas as ondas de opinião têm razão de ser, mas o ministro deveria, nesta altura, dar mais atenção a tantas e tão diversas vozes que lhe apontam falta de tacto. Passa, simplesmente, por estar com os portugueses, e não ser apenas uma voz distante que vem anunciar coisas aos portugueses. Não sei se o ministro alguma vez leu o seu compatriota António Damásio, mas seria interessante reflectir sobre uma das principais conclusões da sua obra “O Erro de Descartes”, que é, basicamente, demonstrar que a ausência de emoção não conduz, por si, a escolhas lógicas e racionais.
2. Não sendo homem de fé, vivo numa sociedade maioritariamente católica. Tenho, por isso, curiosidade e interesse verdadeiros pela figura do Papa, símbolo forte que continua a atravessar os tempos com a sua importância inabalada. Fui um dos espectadores atentos a ver quem nos aparecia à varanda depois do fumo branco. E posso dizer que gostei do que vi e ouvi. Porque vi e ouvi um sorriso simpático e não forçado, como tantas vezes me pareceu ver em Joseph Ratzinger. Porque ouvi palavras simples e modestas, porque se notou logo um apreço pelo sentido de humor, um dos sinais mais notórios de inteligência. Porque tudo, no seu discurso e nos seus movimentos, foi de união e comunhão com o povo que o esperava, como se estivesse, de facto, entre a multidão. Não vi sinais de altivez. Veremos o que se segue, mas, para já, junto-me ao regozijo pela escolha do primeiro Papa Francisco. Demonstrou que, pelo menos, sabe que não há uma segunda ocasião para causar uma primeira boa impressão.