
Peço emprestado para título da crónica o nome de uma canção de Chico Buarque, porque se aplica como uma luva. Depois do impacto da manifestação de 15 de Setembro, depois do ruído de guerrilha que começou por interromper Miguel Relvas e depois se propagou a cada canto onde pudesse estar um ministro, era natural que viéssemos dar à jornada de luta de dia 1 de Março, que uniu, sem surpresa, os elementos mais relevantes das últimas acções: uma organização cuidada e eficaz, e a proliferação de uma canção, repetida com eco em várias cidades. Tudo bem, legítimo, em grande parte justificado, com imagens, sobretudo as aéreas, particularmente tocantes expressivas. Mas… E depois? Que se segue, e, sobretudo, que resultados concretos se retiram de tudo isto? Antes de mais, importa lembrar também um autêntico anticlímax, vivido precisamente no dia seguinte. Para que a manifestação seja um movimento contínuo e musculado, destinado precisamente a produzir um qualquer resultado, havia a convocação de uma nova acção, denominada Cerco ao Parlamento (embora a opção pelo domingo seja discutível). O que se viu nas reportagens televisivas foi confrangedor. Depois do banho de multidão de norte a sul no sábado, no domingo havia quatro pessoas apostadas em continuar o protesto. Sim, quatro, em frente à Assembleia da República. Seria difícil levar por diante um cerco. Foi, aliás, a mágoa nas palavras de um destes resistentes que me levou hoje, também, a questionar para que servirão, afinal, estas acções, se é que vão continuar nos mesmos moldes. Dizia então um dos organizadores do cerco qualquer coisa como “não basta vir para a rua um dia, aparecer na fotografia e depois abandonar tudo”. É certo que as manifestações têm normalmente dia para acontecer, e salvo raras excepções, não se eternizam no tempo, mas entendo o que queria dizer. Sem o referir explicitamente, estava na sua recordação um verdadeiro cerco ao Parlamento, aquele que se viu e viveu em Espanha, com uma manifestação musculada de quase uma semana, que só terminou depois de muitas escaramuças, muitas detenções, muitos gritos e, acima de tudo, muito impacto mundial. Por cá, está visto, não estamos nesse ponto, se é que estaremos. Mais: esta manifestação, já convocada há bastante tempo, foi apoiar-se em grande parte na cantilena do “Grândola”, o que torna a coisa esteticamente mais vistosa, mas de consequência pouco mais do que nula. Até uma alta representante da Comissão Europeia de visita a Portugal o disse: enquanto os protestos forem canções entoadas a plenos pulmões não há grande problema. Este “não haver problema” refere-se, naturalmente, ao lado do Governo, ao lado de quem é contestado. Sejamos claros: ainda que, no primeiro momento, “Grândola” tivesse causado impacto, não só pela surpresa e inovação mas também porque teve o condão de embaraçar e deixar constrangido um dos mais impopulares ministros do momento, a verdade é que a sua eficácia será muito duvidosa com o passar do tempo. Viu-se, aliás, que no dia seguinte à estreia ainda ganhou alguma força suplementar, nas gargantas de estudantes universitários, mas a partir daí tornou-se um fait-divers previsível e inócuo, quando entoada por meia dúzia de cidadãos, a todo e qualquer ministro, em toda e qualquer ocasião. Não é por acaso, aliás, que os ministros foram minimizando a questão, pressentindo, ao longo dos dias, que não passaria daquilo, e se não passa daquilo, bastaria dizer que “em democracia todos têm o direito de se manifestarem, desde que não ultrapassem as barreiras da liberdade de outros”, etc, etc. Isto está um pavor, é um ponto em que todos os portugueses estarão de acordo, penso que mesmo os políticos mais sérios e responsáveis nunca o negaram. E porque está terrível é urgente, de facto, uma solução, ou um quadro de melhorias, de esperança, de sinais que nos digam que este presente não será, para sempre, o nosso único futuro. Mas temos de reflectir se os cartazes do “troika para a rua” acertam o alvo. A troika só veio porque o País se deixou deslumbrar, desorganizar e abandalhar do ponto de vista económico. E obviamente que não foram todos os portugueses os culpados. Terá sido, aliás, uma ínfima mas importante parte, entre políticos, empresários, banqueiros, os que conseguem mexer com a vida de milhões e não estiveram à altura. Esperemos que a juventude que um dia tomará o seu lugar tenha aprendido que estes erros se devem evitar à nascença e não apenas gritar quando as troikas já cá estão.