
E pronto. Basta haver um ventinho de regresso à normalidade (falso e aparente), e logo se agitam movimentações de ciclo político. Por “normalidade”, entenda-se duas ou três indicações positivas para uma economia em frangalhos, coisa tão rara nos últimos anos, em que nos habituámos a que a notícia de hoje fosse sempre pior que a de ontem. Mas neste início de ano terrível (e ainda não vimos o primeiro ordenado depois dos cortes brutais) vieram atenuantes, como a do suposto cumprimento do défice do ano passado, único sinal que pode ir legitimando tanta austeridade, e mais do que isso, o regresso aos mercados, que é como quem diz que quem nos empresta dinheiro volta a ter confiança em nós. É neste quadro que o PS volta a esticar o pescoço para fora da trincheira. Primeiro, o líder admite que não se importava, afinal, de ir a eleições já, afirmando-se “pronto” para assumir os destinos do País, depois de muitos meses de cautelas e declarações prudentes sobre estabilidade governativa. Depois, já que se abre a porta a eleições eventuais antes do fim da legislatura, outros socialistas aproveitam o vento para deixar claro que, antes disso, o partido tem de mudar de líder: é nesta altura óbvio para qualquer português que está em marcha uma movimentação que pretende colocar António Costa no lugar de Seguro antes das eleições, com a ideia de que Costa será adversário muito mais poderoso para Passos Coelho. Acresce que estamos em ano de autárquicas, e que cada partido espera leituras dos resultados que lá vêm, sempre, naturalmente, que o resultado lhe seja favorável. Já estamos a ouvir o partido que mais derrotas sofrer a dizer-nos que as autárquicas são eleições muito específicas, que não se deve extrapolar para leituras nacionais, blá, blá, blá. Seja como for, está visto que entramos em modo de ciclo político, e está visto que o apetite por este jogo é sempre mais importante para os políticos do que o rumo que o País está a tomar, ou não. Sobretudo PS e PSD estão verdadeiramente viciados na alternância, de forma que cada um deles, quando é derrotado e vai para a oposição, encolhe os ombros, sem verdadeira preocupação, e aposta que será uma questão de tempo para regressar ao poder. E assim tem sido. E os responsáveis são os eleitores, que, bem vistas as coisas, também não dispõem de grandes alternativas, ou preferem pensar que só estes dois partidos possuem máquinas capazes de governar. Este novo ciclo que se aproxima a grande velocidade será, no entanto, bastante mais imprevisível do que se possa pensar. Vejamos: o PSD voltou ao poder no momento mais difícil para qualquer governo, a iminência de bancarrota, assumida pelo próprio PS antes de sair de cena, ou não tivesse sido Sócrates a deitar a toalha ao chão e a assumir que precisávamos de ajuda. Mas, como vem nos livros, a partir daí ficou o PSD com a responsabilidade da crise profunda nos ombros, ideia reforçada a cada novo anúncio de mais impostos, de mais cortes nos salários, de mais subidas do IVA. E sim, é lícito dizer que o PSD herdou uma situação difícil, mas tratou depois de nos tornar a vida cada vez mais difícil. No entanto… talvez o PS tenha de pensar bem antes de começar a festejar previsíveis vitórias, apostando que os portugueses não voltarão a votar num partido que nos tem tirado tanto. Acontece que os próximos meses serão decisivos, e poderão adensar um dilema irónico: o PS sempre foi adiando a ideia de eleições antecipadas, sobretudo para que o tempo a passar queime cada vez mais o Governo, como costuma ser da praxe. Mas, e se estes ténues sinais de lenta recuperação continuarem e crescerem? Dito de outra forma, e se os próximos tempos vierem provar que a receita dura de engolir do PSD afinal estava certa? Será muito curioso acompanhar a atitude socialista nos próximos tempos, seja de Seguro seja dos que lhe querem o lugar. Porque me parece que os socialistas enfrentarão um dilema, e terão de assumir perante os portugueses uma posição clara. E o dilema é: se pensam como cidadãos e torcem para que tudo corra bem na nossa economia nos próximos tempos… ou se pensam apenas com ambição política, e desejam que as coisas ainda piorem, porque assim terão mais hipóteses capitalizar o desespero dos portugueses? Para acompanhar os próximos capítulos.