
Fartei-me de rir com a historieta da miúda que ambiciona uma malita Chanel em 2013. Mas não, não foi pelas razões da maioria. Muito pelo contrário. É um caso que só pode ter o relevo que teve se houver muita gente sem muito para fazer. É um caso óbvio de tédio intelectual, e, sobretudo, pretensão intelectual. Como se não bastasse, chega a nós, a maioria dos portugueses, catalogado como um “fenómeno viral” nas redes sociais. Repito o que já disse: todos estes fenómenos seriam apenas o que são, insignificância passageira, não fosse o caso de alguma imprensa e televisão lhes dar eco. O eco, como é da sua natureza, amplia de forma enganadora. Mas tudo bem. Ainda assim, vejamos as coisas em contexto. A rapariga, ao que me dizem, tem um blogue em que dá dicas sobre moda. Vê e lê a coisa quem quer, e já adianta pouco enervar-me com a pequenez medíocre dos admiradores de “Sexo e a Cidade”. Existem, têm adeptos, a mim resta-me não consumir e deixar viver. Adiante. Pelos vistos, a Samsung, como qualquer empresa que tem a mania que é modernaça e espreita oportunidades de negócio nesse “fenómeno viral das redes sociais”, patrocinou uns depoimentos destes bloggers, o que indica que são alguém que vale a pena ouvir lá no seu mundo, quem sou eu para julgar. Neste contexto, de moda, de bloguezinho fútil e giro, pediram à rapariga que nos anunciasse alguns desejos para o ano que começa. A rapariga garante que foram bastantes e variados, mas só colocaram na rede universal o momento em que, com a sua vozinha nasalada de pretendente a “tia”, nos diz que gostaria muito de ter a mala Chanel, daquelas pretas que dão bem com tudo, esclarece-nos ainda. E daqui nasceu todo o burburinho, toda a chacota, todo o gozo, todo o desprezo. Pois a minha pergunta é básica: porquê? Como não estou nas redes sociais, indaguei alguns amigos sobre o teor das críticas ferozes à jovem Pêpa. Então não está bem de ver, pá? Numa crise como a que atravessamos, com tanta gente a sofrer, e vem esta palerma ambicionar uma mala Chanel, a pretensiosa, a insensível, a burra de cérebro vazio… Ah ela é isso? Então a única conclusão a tirar é que cada um dos críticos da Pêpa é uma espécie de miss em concurso de beleza. Os seus desejos são sempre o fim da fome no mundo, uma sociedade livre de injustiças e a descoberta da cura para o cancro. É curioso que vi a rir da Pêpa homens e mulheres que trazem no bolso a última versão do iPhone, que, a julgar pelo seu ordenado, também tiveram de ambicionar. O que os terá impedido então, interrogo-me, de aplicar esse dinheiro que gastaram no último e mais moderno gadget e ir entregá-lo, por pouco que fosse, a uma instituição de solidariedade social? Porque é que tantos, em vez de comprarem o ambicionado iPad ou avançarem para umas férias na neve, não foram ao multibanco levantar e mesmíssima quantia e a distribuíram pelos sem-abrigo? A Pêpa, pelo que se dá a conhecer, pelo que vemos e ouvimos, não trará com ela qualquer diferença ou avanço. Parece ser apenas uma rapariga algo tonta, a tentar construir uma personagem. Mas nada disto é crime ou sequer relevante. Ou novo. Por outro lado, percebemos que faz por trabalhar para ter um ordenado (coisa que muito malandro não faz sequer). E que com esse ordenado, numa sociedade normal e livre, poderá e deverá fazer o que bem entender. Ganhar 700 euros por mês e ambicionar uma mala de 3 mil é problema dela. Se outros iluminados gastariam o dinheiro de outra forma não faz dela necessariamente estúpida ou desprezível. Impressiona, acima de tudo, mais uma manifestação clara de fenómeno de carneirada. Gente que não daria dois minutos de atenção à Pêpa, ou, ouvindo-a, não reteria nada que valesse a pena lembrar, mas que salta logo, muito excitada, assim que o grupo em que se insere decide desatar a malhar na rapariga. Seria curioso sabermos os desejos verdadeiros destas misses tão revoltadas. Seria uma boa maneira de perceber se têm legitimidade para os seus reparos tão moralistas. O grande erro da jovem foi não perceber que ninguém diz a verdade e que toda a gente fica à espera para exprimir uma opinião que esteja de acordo com maioria, de preferência coisas politicamente correctas. E, no entanto, curioso, o mundo não tem ficado um lugar melhor se ficarmos à espera das misses. Mas a culpa é das Pêpas, não é?