
1. E eis-nos chegados a 2013, o ano de todos os terrores, de que só nos iremos aperceber, em toda a sua dimensão, quando virmos os recibos do nosso primeiro ordenado do ano. A corda da crise estica-se, e é imprevisível calcular quanto conseguiremos aguentar, e por quanto tempo. Estica-se para os extremos, na básica e preocupante lógica de que ganhamos cada vez menos e tudo, mas mesmo tudo, está cada vez mais caro. E no entanto, continuo espantado com o que vejo, ouço e leio, sinais contraditórios que depois permitem a políticos ou banqueiros dizerem coisas como “ai, ainda aguentamos mais cortes, sim senhora”. Cada reportagem traz novas cores de miséria, famílias que ainda há pouco tempo conseguiam algum honesto desafogo e agora já se juntam às filas da ajuda alimentar. Ou os estudos e outras estatísticas com que somos inundados, que referem restaurantes a fechar por falta de clientela, auto-estradas vazias na fuga às portagens e aos gastos com combustível, casas devolvidas aos bancos por gente que já não aguenta as prestações. E no entanto, dizia eu, quem andasse pelos centros comerciais pela época do Natal pensaria estar num outro país, ou julgaria que as notícias da crise podem afinal ser indevidamente ampliadas pelos jornalistas. O movimento de sempre, pareceu-me, sacos de compras, roupas de marca, perfumes, os mais pequenos a apontarem os caprichos aos pais, os pais a entrarem e comprarem, mais um telemóvel, mais um jogo de computador, famílias a saírem de lojas com um novo e maior LCD debaixo do braço. Terei sido só eu a ver isto? Foi uma excepção o que vi? Foi só nos centros aonde fui, e à hora a que fui? Estaria o resto do País às moscas, a sentir na pele a dimensão da crise? Com tanto estudo que por aí anda, com conclusões tão díspares, é de ficar confundido. Por um lado, ainda bem que se vai vendo famílias a desfrutarem do que, pelos vistos, conseguiram amealhar para a ocasião. Mas temo bem que seja aquela sensação bem latina do “por agora ainda dá, depois logo se vê”. Temo bem que ainda não esteja bem mergulhada nas nossas cabeças a certeza de que a nossa vida mudou, que o crédito fácil acabou, que deixar para o “logo se vê” tem agora franca possibilidade de dar mau resultado.
2. Não entendo porque se tentou criar tanto suspense com a “posição” do Presidente da República em relação ao Orçamento do Estado. Estava visto que Cavaco Silva nunca optaria pela profunda crise política que significaria o seu veto ao documento. Pela simples razão de que estamos reféns da “impressão” que vamos causando às troikas e aos mercados, essa entidade opaca e abstracta que fica logo muito nervosa ao mínimo sinal de que ponderamos não cumprir as ordens que nos impuseram. É por isso que o jogo político actual é tão insignificante, porque está condicionado à partida. Tirando as declarações mais inflamadas da esquerda, que jura a pés juntos que nos seria possível voltar as costas à troika e sobreviver, não se vê o PS, por exemplo, muito apressado em seguir o mesmo caminho, ou mesmo a querer precipitar eleições: o partido sabe bem que pouco diferente poderia fazer nesta altura. O mesmo se aplica a Cavaco Silva. Por isso, sabe sempre a inconsequente um ou outro puxão de orelhas que parece lançar ao Governo. Já todos percebemos que, no limite, o Presidente não fará muito mais do que soltar ocasionais avisos e reprimendas morais. É uma forma hábil de se manter do lado das preocupações do povo, mas sem a precipitação de ser ele a provocar uma reviravolta que poderia maçar e incomodar quem nos empresta dinheiro e nos tem reféns.
3. Não sendo sportinguista, sempre gostei de ver um Sporting forte. Porque os pergaminhos do clube o merecem, e porque alimenta um nível competitivo que torna os campeonatos muito mais interessantes. O que se está a passar é mau demais para ser verdade. E parece-me claro que o desnorte de ir mudando apressadamente processos, ou inventando esquemas nunca testados, como esta de Jesualdo ser treinador de treinadores, não traz nada de bom e torna evidente que, de confusão em confusão, mais valia o clube repensar tudo de alto a baixo. Os adeptos merecem, e os portugueses que não são do Sporting mas gostam de competição desportiva agradeceriam.