
O triste caso da criança que morreu após o ataque de um cão lá de casa teve, ao que parece, um seguimento inusitado. Tardei a dar por ele, já que nasceu e cresceu nas chamadas redes sociais, campo onde sou analfabeto. Como é da “praxe”, o cão ficou “detido” no corredor da morte. Uns dias de quarentena até ser abatido. Neste entretanto, um grupo de defensores dos animais tratou de criar um movimento para tentar salvar o cão, utilizando para isso o apelo via Internet. A argumentação: o cão não deveria ser responsabilizado mas, sim, os donos, mais a indignação de ver estes casos “resolverem-se” todos da mesma forma. Mata-se o bicho e pronto. Não é inédito, mas raramente estas opiniões adquirem estatuto de “movimento”. É aqui que entra a força das redes sociais. Acontece que ao encontro do movimento veio uma petição em sentido absolutamente contrário. A revolta e indignação dos cidadãos que acham inconcebível “defender” um cão responsável pela morte de uma criança. E que pediam, ou exigiam, o abate imediato do animal. A matéria é profundamente delicada, quando nunca podemos esquecer que está em cima da mesa a morte de uma criança. Mas é necessário que se perceba, de uma vez por todas, que ir abatendo animais que um dia mordem não irá resolver o problema de fundo. E é esse que deveria preocupar-nos. Basta pensar que, neste entretanto em que grupos de cidadãos se defrontam na Internet, com insultos à mistura (já lá iremos), o dono ou donos do bicho assobiam para o lado. Que eu saiba, não houve entretanto forma de percebermos se não terão tratado já de arranjar outro cão de raça potencialmente perigosa, que tratarão com a negligência e desinteresse criminosos com que trataram o animal que agora enfrenta a morte. Este deveria ser o foco de toda a atenção preocupada: os donos e não o cão. A responsabilidade do animal? Obviamente que não tranquiliza ninguém saber que um bicho atacou uma criança, ou fosse quem fosse. Mas a “responsabilidade” não pertence ao reino dos animais irracionais, pertence-nos a nós. Há uma equação simples a fazer: se um homem mata outro homem, de forma premeditada, sabendo o que está a fazer, percebendo que as consequências do seu acto são as de acabar com outra vida, espera-o uma vida longa na prisão, mas não a imediata sentença de morte (excepção óbvia para os países que ainda praticam a pena máxima). Um animal que não tem capacidade de pensar sobre consequências é imediatamente abatido, e assim as consciências de muitos parecem ficar mais tranquilas, com essa “justiça” primitiva. Não vou entrar na discussão que se reergueu a propósito deste caso, em que não faltaram os que vieram “lembrar” que “a vida do ser humano mais asqueroso vale mais do que a do animal de mais gostamos”. A minha opinião é, pelos vistos, tão politicamente incorrecta que vou mas é ficar calado. O caso, para mim, resume-se a uma mágoa e uma preocupação. A tristeza de um drama que rouba a vida a uma criança, óbvio e em primeiro lugar, mas a eterna preocupação de ver que os donos destes animais continuam a passar entre os pingos da chuva, sem uma lei verdadeira, de aplicação rigorosa, que os vigie e impeça de continuarem a semear comportamentos potencialmente perigosos com os animais que vão tendo, e continuam a ter. Para estas pessoas, o cão é um óbvio objecto. Este portou-se mal? Manda-se matar e arranja-se outro. Uma última palavra para as trocas de mensagens nas redes sociais. Percebi que Ruy de Carvalho se juntou aos que queriam evitar o abate do cão. E percebi que, por causa dessa sua opinião, um senhor com 80 e muitos anos foi insultado e enxovalhado. É inacreditavelmente deplorável, por muitas razões. Acima de tudo, porque Ruy de Carvalho, admire-se ou não as suas capacidades profissionais, se não quisermos acarinhá-lo, devemos-lhe, todos, um mínimo de respeito. Segundo, porque continua a haver muita gente que não entende que esta coisa da democracia funciona para os dois lados. Há que encaixar que outros não pensem como nós, e não desatar aos gritinhos insultuosos. Quanto ao essencial deste caso, receio que não será o último, a julgar pela impunidade de que continuam a beneficiar pessoas que não nasceram para lidar com animais, e ainda assim insistem. Porque os deixam.