
1 Não há nada mais natural: sou muitas vezes abordado por espectadores na rua, no café, no restaurante. Há elogios e reparos, mas também cada vez mais perguntas de quem acha que os jornalistas estão mais bem informados do que o resto da população, ou que “sabem” mais do que o que dizem. É verdade, em ambos os casos, embora não tanto quanto se possa pensar. Mas há, sem dúvida, uma angústia crescente no que respeita a abordagens sobre a economia, ou, de forma mais abrangente, sobre o “estado do País”. Dito de outra forma, tenho sido muitas vezes confrontado com pedidos de esclarecimento sobre o que nos reserva afinal o futuro. A questão deixa-me em posição delicada, não só porque não sou adivinho, mas porque, nos últimos anos, me sinto apenas mais um espectador no que diz respeito à compreensão da verdadeira situação. E parece–me que haverá muitos mais profissionais das mais diversas áreas igualmente confundidos. E porquê? Desde logo, porque desde o início da grande crise, digamos que lá em meados de 2008 e sem fim que se vislumbre, temos sido bombardeados por torrentes de palpites e teorias que, passados tantos anos, nos fazem desconfiar seriamente: será que alguém verdadeiramente sabe como chegámos aqui e sobretudo como poderemos sair? E este alguém não só inclui como se refere, especificamente, aos grandes gurus da Economia. Apesar de ser jornalista experiente, surge-me uma metáfora que qualquer cidadão entenderá: quando vamos num avião, não fazendo a mínima ideia como se levante a e aterra, confiamos que os pilotos sabem exactamente o que estão a fazer, e como responder aos problemas que possam surgir. O momento que atravessamos é um pouco como se fôssemos espreitar à cabina e déssemos com os pilotos aflitos, a consultarem o manual, a tentarem perceber em que botão devem carregar a seguir. Dito de outra forma, parece-me que a crise veio pôr a nu notórias fragilidades dos grandes entendidos da Economia. Nos últimos cinco anos, temos assistido a um fartote de palpites, que depressa verificamos não passarem disso, quando seria de esperar muito mais de tanto entendido com licenciaturas, doutoramentos, mestrados, MBA, resmas de canudos que lhes conferem o estatuto de especialistas. Mas a caminhada angustiante continua, sem luz ao fundo do túnel. Desde logo, as nervosas agências de notação financeira, que regem os mercados, e que continuam a agir como se não tivessem já falhado redondamente em inúmeras e graves ocasiões. Depois, as notícias que temos de dar a cada semana, dos relatórios e previsões mais díspares: o FMI diz que, a OCDE considera que, o BCE assegura que, a FED prevê que… uns garantem que a crise está a desaparecer, outros alertam que ainda não chegámos ao fundo dos fundos, e tudo isto muitas vezes no mesmo dia, em análise dos mesmíssimos dados. Toda esta gritaria em cima de uma realidade que piora de dia para dia só nos angustia cada vez mais: gostávamos de ter boas notícias, mas se forem más, gostaríamos de as saber de uma vez por todas, para nos podermos preparar. O problema é que não são uma coisa nem outra. Ou são as duas ao mesmo tempo, o que vai dar ao mesmo. O que nos leva a poder pensar que, infelizmente, a maior parte das previsões dos especialistas também as podemos fazer: se isto não piorar muito, pode ser que melhore um pouco.
2 Não deixa de ser curioso que o Governo não tenha de enfrentar, apesar de tudo, sinais evidentes de desgaste. Seria de prever que, perante tudo o que nos faz passar, os portugueses andassem a gritar para que o PSD saia dali para fora o mais depressa possível. É a tradição. Quando nos fazem mal, pedimos para que venha outro. O problema do outro é que é o PS. E o PS parece-me ter um problema, desde logo interrogar-se porque não consegue capitalizar facilmente as maldades deste Governo. Penso que não ajudam estas quezílias internas, jogadas à frente de toda a gente, ameaças de golpes palacianos para substituir o líder, para dias depois haver afinal um entendimento com o líder, embora o que resulte do “entendimento” inclua marcação rápida de eleições directas dentro do partido. O PS tem dado aos portugueses uma ideia de instabilidade emocional. E disso já os portugueses têm tido de sobra.