
1. Os factos são claros, e são conhecidos. É um facto que Franquelim Alves não é acusado de nada, nem sequer suspeito (que se saiba) de nenhum ilícito. Mas é também um facto, agora público e notório, que o recentemente empossado secretário de Estado omitiu no seu currículo a passagem, nada breve, pela SLN, que é como quem diz, pelo BPN. Ora, em vez de atirar a juízos de valor, limito-me a levantar questões, vício de jornalista. A primeira é, obviamente: porque o terá feito? O que o levou a omitir, clara e deliberadamente, que fez parte do grupo responsável pelo banco que contribuiu decisivamente para a dimensão do buraco financeiro do País? E porque o fez sem pensar, por um momento, que não tardaria muito a dar nas vistas essa omissão, bastaria qualquer jornalista mais atento? Foi, como se costuma dizer, a ver se “colava”? Acreditaria Franquelim Alves que ascenderia ao Governo sem que nos lembrássemos que esteve no BPN, quando estão gravadas as suas declarações na comissão parlamentar de inquérito? E acharia que não nos lembraríamos de declarações que assumem histórias mal contadas no banco, e situações que deveriam ter sido de imediato reportadas à entidade supervisora, embora Franquelim tenha dito, então, que não as declarou para ver se se “confirmava” a coisa? Mas, repita-se, Franquelim Alves não está sob a alçada da Justiça. É um facto. Mas não deveria o Governo pensar duas ou três ou quatro vezes antes de chamar para funções um nome ligado a um escândalo cujas verdadeiras dimensões e consequências para os portugueses ainda não chegaram ao fundo da questão? Parece que não. Aliás, ouvir o ministro da Economia defender a escolha é ver, como há muito não se via, um alto representante do Estado dar o peito às balas, ou pôr a cabeça no cepo, como se costuma dizer, por alguém, com afirmações grandiosas sobre idoneidade e brilho de percurso. A ver vamos se Santos Pereira não arriscou em demasia tanto elogio à sua escolha. Veremos se não se arrepende de não ter procurado outra hipótese. Mas, haja o que houver, o ministro (e o chefe de Governo) deveriam, talvez, recordar-se com cautela da velha e sempre verdadeira imagem da mulher de César, que diz que não basta ser séria, há que parecer séria também. Numa altura em que os portugueses passam por dificuldades nunca vistas, na semana em que a “Grande Reportagem” da SIC faz, em episódios concludentes, a anatomia do escândalo do BPN, para que os portugueses mais desatentos fiquem a perceber o quanto este banco e os seus responsáveis contribuíram para que a nossa situação seja muito pior do que poderia ser… Por tudo o que é prudência na estratégia política, não poderia o Governo ter escolhido outro secretário de Estado? Para que, ao menos, parecesse não premiar com um alto cargo alguém que traz demasiadas perguntas incómodas agarradas? O futuro, e um futuro não muito distante, dirá se o Governo arriscou em demasia e se virá a pagar alguma precipitação e desprezo pelo que as coisas parecem.
2. Não é caso único, e precisamente porque os dramas do género têm crescido, arrepia-me verdadeiramente a história da mulher que matou os filhos antes de se suicidar, incapaz, ao que parece, de lidar com um divórcio que acabou por lhe retirar a custódia dos miúdos. É uma barbaridade sem igual que tem por última e cruel finalidade rebentar emocionalmente com o homem que se separou dela. Parece-me certo que este homem dificilmente recuperará do choque de ver os seus filhos assassinados, às mãos da mulher com quem partilhou grande parte da vida. Que haja mulheres (ou homens, claro) capazes de levar ao nível final as disputas conjugais, por mais horrível que nos possa parecer, é do foro e do estofo de cada um. O que é absolutamente incompreensível e imperdoável é que os filhos em comum sejam usados de que forma for, seja como “simples” arma de arremesso em tantas discussões ou atitudes (“nunca mais vês os miúdos, vais ver!”), ou este nojo inqualificável de os levar consigo na última e tresloucada viagem para o nada. Triste vitória, a desta mulher. De facto, o ex-marido nunca mais vai ver os filhos. Basta. Chega. É demasiado brutal, tudo isto.