Na esfera pública, não deverá haver missão mais difícil do que saber gerir uma imagem. No chamado mundo das celebridades, sabe-se (ou devia saber-se), que muito mais difícil do que chegar ao topo é permanecer por lá. Não faltam na História figuras de dimensão pública, entre artistas e outros, que ficam limitados a famas efémeras, cometas de relevância crescente, mas que um dia tropeçam, e brilham por pouco tempo. Muitas vezes, é certo, porque o público, pura e simplesmente, gostou primeiro e abandonou depois. Mas tantas e tantas outras vezes, esse declínio é criado pelos próprios, com passos em falso, estratégias mal calculadas, aparecer no sítio errado, dizer o inconveniente quando se aconselhava silêncio, e mil e um outros riscos.
Por que motivo faço esta introdução quando quero falar de José Sócrates? Simplesmente porque não sei onde encaixar o seu regresso ao universo público. Por outras palavras, não sei se está a jogar bem ou mal quando decide voltar a enfrentar-nos, e logo com um longo comentário semanal numa televisão generalista. E não uma televisão qualquer, mas quanto a isso já lá vamos. Antes de mais, vejamos: quem é afinal o homem que regressa? Ou seja, que lembranças provoca em nós José Sócrates? Pelo menos duas, e antagónicas. Por um lado, ele é o governante teimoso, irascível e colérico, que saiu pela porta pequena depois de se ver obrigado a pedir a intervenção internacional para salvar o País da bancarrota, situação que tentou esconder. Para outros, ele é o homem de nervo e coragem que deixou um vazio, e que vem aí dizer umas “verdades”. Não será por acaso, digo eu, que Sócrates decida voltar quando o rumo do País mergulhou ainda mais fundo depois da sua saída, o que trará a tentação de se comparar com o que temos, para nos dizer que com ele estávamos melhor. Argumento falacioso e impossível de comprovar, mas não nos admiremos se ele for por aí…
Seja como for, parece-me certo que o tom dos seus comentários será sempre o de pedir contas a quem o derrubou, perguntando-nos por que motivo quisemos tanto eleger um Governo que nos arrasta na maior austeridade de sempre. Com Sócrates, no entanto, será curioso observar, mais do que o conteúdo, o tom ou forma. Virá a falar alto, de murro na mesa? Ou…manso, como alguém um dia lhe chamou, e que tanto o enfureceu? Eis a primeira dúvida. E a segunda não será menos interessante. Virá para incomodar apenas os inimigos de outros partidos, sem dúvida PSD e CDS, ou também, como tanto se prediz, os adversários internos? Ou seja, virá também para acertar contas com o próprio partido, liderado hoje por alguém que teve sempre a preocupação de não se colar muito à sua figura, enquanto ela ia caindo no precipício de um desgaste brutal?
Neste particular, parece-me ingénuo que António José Seguro considere que o regresso de Sócrates pouco ou nada abalará as estruturas do partido, nomeadamente a sua gestão na liderança, sobretudo numa altura tão crítica e delicada: quando Seguro corre o “risco” de se ver primeiro-ministro de repente. Seguro quis parecer…seguro, e foi politicamente correcto ao dizer que não vê qualquer inconveniente que um antigo chefe de Governo se torne comentador, ou não vivêssemos num país livre e democrático. Mas custa-me a acreditar que o que vamos ouvir seja apenas um rol de acusações ao actual Governo; antes creio que muito mais vamos ouvi-lo dizer que o PS deveria fazer assim ou assado. Sobre isto, parece–me haver poucas dúvidas: falando de fora da estrutura, descomprometido (por agora), Sócrates não perderá uma oportunidade de piscar o olho ao partido que liderou, fazendo soar a música do velho ditado “atrás de mim virá quem de mim bom fará”. A acompanhar com atenção, vêm aí dias animados. E há, depois, a questão do onde e quando, a questão de Sócrates ir “actuar” no palco mais nobre da estação pública. Levanta-me algumas questões. É um convite com ar de provocação, de uma Direcção de Informação que se sente maltratada por este Governo? Depois, há que lembrar que uma estação (ainda) pública tem obrigações e restrições que as privadas não têm. Pode haver críticas ou desconfortos aqui e ali, mas TVI e SIC não devem grandes explicações aos portugueses por darem voz a Rebelo de Sousa e Marques Mendes, ambos de cor política conhecida e semelhante. Já a RTP deve (ainda) explicações por optar por comentário sem contraditório. Ou não?