RTR2FZYC.jpg

Escrevi, na semana passada, sobre a questão cada vez mais actual da “produtividade”. Fi-lo a propósito da questão dos feriados que decidiram sonegar-nos, prevendo que, dessa forma, trabalharemos mais (mas trabalharemos melhor?) Defendi que não estou por um lado nem por outro. Ou seja, acho uma falsa questão colocarem-nos a trabalhar nos feriados em nome da produtividade, como também já não aguento o choradinho do trabalhador-tipo, que mesmo em tempo de profunda crise só tem olhos para os seus direitos mas raramente se interroga sobre a extensão dos seus deveres. O que esta discussão levanta, quer-me parecer, é a mais básica percepção das profundas assimetrias tradicionais no mundo do trabalho: um bom trabalhador ou patrão tenderá a sê-lo sempre, ou a tentar sempre, sejam quais forem as circunstâncias. E a inversa é também, ou ainda mais, verdade. Quem gosta pouco de bulir e vive a pensar como há-de safar-se entre os pingos da chuva, terá essa atitude em tempo de vacas gordas ou magras. A nossa relação com o trabalho e a responsabilidade emana, estou cada vez mais certo, do mais profundo da personalidade que nos define em quase todos os momentos da nossa vida. Dito isto, acredito cada vez menos nas teorias da quantidade de trabalho que por vezes se impinge artificialmente, em nome da produtividade. Tudo isto para dizer que é tema que me entusiasma do ponto de vista reflexivo, sobre o qual já tive conversas nas quais encontrei, inevitavelmente, gente que concorda comigo e gente que me manda dar uma volta. O problema desta ou outras questões de reflexão, (ou filosofia, como lhe chamariam alguns) é que é muito raro encontrarmos no mundo das palavras, portanto do diálogo ou discussão, uma tradução exacta do que nos parece tão óbvio no mais fundo e indizível de nós. Acredito que já terá tido a mesma sensação, se gosta de trocar argumentos e pensar: caramba, isto para mim é tão óbvio, como faço o outro ver exactamente o mesmo que eu? Acontece que, em relação a esta matéria, posso respirar de alívio, porque descobri recentemente pelo menos uma pessoa que parece ver o mundo com as mesmíssimas cores e tons que me entram olhos dentro. Nunca liguei absolutamente nada a esses livros dos milhares gurus da gestão que por aí andam, sendo que só folheei absolutas banalidades escritas em tom ora pomposo ora espertalhão. Mas foi precisamente ao folhear um livro sobre o qual não daria um tostão furado que me vi, frente a frente, com aquilo que sinto e não sei muito bem explicar. Primeiro, é curioso perceber como chegamos a tanta coisa de forma intuitiva ou inconsciente (o que daria outra conversa). Lá estava, escrito e descrito, o que sempre me pareceu óbvio, mas não sabia estar tão provado. O mundo da economia já lida há muito com a evidência do princípio do 80-20. E este princípio aplica-se a quase tudo, se não tudo, o que nos rodeia, o que perceberá assim que lhe explicar de que se trata. O que este princípio defende é que, em qualquer organização, seja uma empresa pequena ou grande, uma escola, um hospital, uma equipa de futebol, ou até mesmo uma família…um pequeno grupo acaba por ser responsável pela grande maioria do trabalho ou produtividade, enquanto um grande grupo faz muito pouco. Daí os números:  um pequeno grupo de 20% de pessoas dão conta de 80% do trabalho que certa empresa ou organização “produz”. Ou seja, um avassalador grupo de 80% das pessoas contribui para os restantes míseros 20% de produto. E a constatação desta fórmula é tão bem explicada que se reflecte até a outros campos, que julgaríamos muito longe da lógica empresarial: conclui-se, por exemplo, que em determinado bairro problemático, famoso pela sua criminalidade, afinal apenas 20 % dos meliantes é directamente responsável pelo maior número de crimes. Qual número? Adivinhou: 80 por cento. E por aí fora. Proponho-lhe, em jeito de exercício, que multiplique este princípio por quantas realidades consiga imaginar. A conclusão nunca será muito diferente. Talvez lhe aconteça reparar que você faz parte dos 20% que fazem 80%… Bem sei, bem sei, a primeira tentação é esbracejar e dizer que não vai continuar a trabalhar para lá da conta, para que tantos que não fazem nada se aproveitem do seu esforço. É uma tentação, sim. Mas, se você fizer realmente parte dessa minoria que acaba por fazer o trabalho da maioria, concentre-se no seu orgulho. É de pessoas assim que se faz o progresso. Malandros, lamento, haverá sempre. Mas não é a imitá-los que se avança. Ou que ficaremos mais felizes.

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

Tribunal diz que 00h30 não é limite

Tribunal diz que 00h30 não é limite "absoluto e automático" para manifestações e autoriza montagem de uma tenda no Rossio

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

CARAS Decoração: Cromática, uma coleção desenhada por Pedro Almodóvar

CARAS Decoração: Cromática, uma coleção desenhada por Pedro Almodóvar

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1756

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1756

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e "resorts" de Portugal

Parabéns, bicharada!

Parabéns, bicharada!

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como "superalimento"

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Cristina Ferreira ousada com decote revelador

Cristina Ferreira ousada com decote revelador

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Tudo isto é cinema

Tudo isto é cinema

A mulher que o Estado não conseguiu matar

A mulher que o Estado não conseguiu matar

Descobrir o Porto, da Sé até à Ribeira com Germano Silva

Descobrir o Porto, da Sé até à Ribeira com Germano Silva

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”

Investigadores conseguem novas

Investigadores conseguem novas "receitas" para reprogramar células que podem ajudar a combater o cancro

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Sofia Ribeiro volta a unir-se à Intimissimi para campanha

Sofia Ribeiro volta a unir-se à Intimissimi para campanha "Outubro rosa"

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

O truque infalível de Filipa Gomes para as castanhas assadas perfeitas

O truque infalível de Filipa Gomes para as castanhas assadas perfeitas

As fotos mais ousadas de Helena Isabel nas férias. Veja a galeria de imagens

As fotos mais ousadas de Helena Isabel nas férias. Veja a galeria de imagens

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

E se os refugiados do clima formos nós?

E se os refugiados do clima formos nós?

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

O futuro da energia é agora

O futuro da energia é agora

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

25 peças para receber a primavera em casa

25 peças para receber a primavera em casa

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Um século de propaganda na VISÃO História

Um século de propaganda na VISÃO História

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

O grande negócio dos centros de dados

O grande negócio dos centros de dados

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Celebrar a Páscoa com escapadinhas para todos

Celebrar a Páscoa com escapadinhas para todos

Decisão do tribunal não reconhece direito à instalação de tendas no espaço público

Decisão do tribunal não reconhece direito à instalação de tendas no espaço público

Sabe qual é o seu arquétipo erótico?

Sabe qual é o seu arquétipo erótico?

Sara Matos como nunca a viu em cenas ousadas em “Sangue Oculto”

Sara Matos como nunca a viu em cenas ousadas em “Sangue Oculto”

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

17 novos restaurantes na Grande Lisboa

17 novos restaurantes na Grande Lisboa

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Recorde as melhores imagens da XXIX Gala dos Globos de Ouro

Recorde as melhores imagens da XXIX Gala dos Globos de Ouro

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

Moda:

Moda: "Look" festivaleiro