
Por imperativos de prazos desta revista, no momento em que escrevo faltam poucas horas para o ministro Miguel Relvas regressar à Assembleia da República, onde dará, segundo as suas próprias palavras, o esclarecimento cabal e definitivo para o deixarem em paz com esta novela das pressões sobre o “Público”, mais o dossiê das secretas. Como cidadão votante, assim o espero. Dê lá por onde der, convém que este caso fique totalmente esclarecido, e rapidamente. Mas o que me traz aqui, e que é certamente independente do que Relvas entender acrescentar, é que, dê por onde der, o nosso entendimento da sociedade livre e democrática não será o mesmo. Esta é a perigosa gravidade da questão. E por uma razão muito simples: como não creio que algum dos intervenientes venha a mudar muito a sua posição, pelo menos no essencial, significa que alguém está a mentir. E é preciso acabar com aquelas figuras de estilo que tentam sempre suavizar as questões, como a expressão do “faltar à verdade”. Chamemos-lhe o que é: mentir. Quando há duas versões tão contraditórias, e vindas de gente com tanta responsabilidade, temos fundadas razões para ficarmos preocupados. Ou temos a mentir a directora de um jornal de elevado prestígio como o “Público” ou temos a mentir o número dois do Governo. Ou seja, muito vai mudar, quando tudo se esclarecer, no nosso entendimento e relação com quem ascende ao poder ou quem escreve na comunicação social de prestígio. Mas esse duelo de “verdades”, entre Relvas e o “Público”, parece cada vez mais a ponta de um icebergue, a que se juntam cada vez mais e mais dados preocupantes sobre as nossas secretas, que parecem estar à mercê de interesses que pouco têm de patrióticos. A cada dia, nova revelação. Cada vez mais perigosa, porque ajuda a encaixar um puzzle de lógica empresarial. Agora, recentemente, a descoberta de que uma das missões de alguém nos serviços de informação que todos pagamos foi o de montar um extenso dossiê sobre Francisco Pinto Balsemão, com os seus amigos, inimigos, interesses, e, pior, desnecessário e revelador, os seus “vícios”. Uma vez mais, começa a ser cada vez mais difícil acreditar em simples coincidências. Começa a ser difícil crer que é irrelevante, neste caso, a guerra pública que opõe Balsemão e Nuno Vasconcellos, recentemente constituído arguido ao lado do superespião Silva Carvalho. Difícil acreditar que é simples coincidência a existência de um dossiê “comprometedor” sobre Balsemão, feito a mando de alguém que integra depois a Ongoing. Mas, dita a prudência e a justiça, nada disto está provado até… estar provado. Mas é neste lamaçal de suspeitas, segredos e mistérios que Miguel Relvas acaba envolvido. A julgar pelo que diz, alguém o envolveu indevidamente. Mas a verdade é que o seu nome está lá. E é agora ou nunca que vai ter de sacudir a lama. Para Passos Coelho, quero crer, é uma matéria extremamente sensível. Se, por um lado, acaba por trazer, ironicamente, alguma trégua pública ao debate e críticas económicas de crises e austeridades e troikas, por outro traz-lhe um (inesperado?) problema ético-político para resolver. O primeiro-ministro tem medido as palavras, procurando o silêncio, ou, quando as insistências dos jornalistas são demasiado flagrantes para continuar a esquiva, lá vai respondendo com muita cautela, naquele fio frágil de não-comprometimento, que se faz repudiando, no geral, “manobras que pudessem pôr em causa a democracia e a liberdade da imprensa”, mas não gritando a plenos pulmões que coloca as mãos no fogo pelo seu mais importante ministro. Que vai sair de tudo isto? Resposta de enorme dificuldade, mas que traz consigo uma certeza: é que alguma coisa tem de ser concluída, porque será incomportável mistérios desta grandeza nunca se esclarecerem por completo. Tenho a certeza de que a parte que não mente neste caso não descansará enquanto não houver o tal esclarecimento cabal. No essencial, tudo isto é triste, além de grave. Se à nossa crise económica somamos uma crise de confiança em tamanhos pilares da sociedade onde nos garantem que vivemos em paz a liberdade, temo bem que a descrença dos portugueses pode vir a transformar algum do conformismo em que mergulhámos noutra coisa qualquer. Mais agitada e revoltada, estou certo.