
Contaram-me. Não acreditei. Fui verificar à Internet. Confirma-se. Valha-me Deus. Trata-se de um pequeno vídeo, protagonizado por esse casal que juntou à paixão (não ponho em causa, que sei eu?) o olho clínico e esperto para o casamento-negócio, mais um do género “estar-contigo-vai–dar-me-mais-visibilidade-e-estares-comigo-faz-o-mesmo-por-ti”. Ela chegou a cantar, mas vive sobretudo de deixar fotografar a sua inquestionável beleza. Ele, segundo algumas classificações, é um galã, modelo de passarela e fotografia. Ou foi. Porque o andar da carruagem torna-os, como tantos antes deles ou depois deles, menos requisitados. Portanto, há que ganhar a vida. Surgem-nos, pois, como tantos antes e depois, sempre ligados a “projectos” e “eventos”, e são “empresários” de qualquer coisa. E é neste campo, exigente de inovação, que lhes surge a ideia para um vídeo promocional da sua “empresa” (lá está…) de “eventos” (lá está novamente…). E que fez o casal, perante tão estimulante desafio de promover a empresa? Pegou no nome da dita, Vai Bater (o bom gosto começa logo aqui) e decidiu uma campanha… literal. No vídeo, Rubim aparece recostado na cama, atento ao seu iPad. Mónica surge do lado esquerdo, numa roupa interior provocante. Já que está numa roupa interior provocante, avança, muito naturalmente, a provocar o entusiasmo do marido galã. Qual cobra em areia quente, desliza pelo colchão, lançando-lhe o olhar lânguido e matador que não engana: quer brincadeira. Mas ele está absorto em “trabalho” (até está de óculos para nos dar a dimensão da seriedade da coisa). Não só não lhe dá troco como a enxota. Mas ela insiste, confiante na pujança das suas curvas e na emergência do seu desejo. E eis que o caldo se entorna. Ele não está para ali virado, mas ela não entende, ou não quer entender. Então, para frisar bem que não haverá brincadeira, e talvez com o intuito duplo de lhe explicar e a fazer acalmar, ele aplica-lhe uma violenta e inesperada… cabeçada, qual marinheiro em rixa no Cais do Sodré. Mónica fica inconsciente no colchão. Ele levanta-se, que está visto que tem mais o que fazer, mas antes de se ir embora aproxima-se da mulher inanimada e beija-a no rosto. Vem depois o clímax, com o nome da empresa: Vai Bater. Ora bem, por onde começar? Perante reacções de indignação, o casal apressou-se a defender-se com o “impacto” e o “humor”. Impacto, ninguém duvida. Humor já mais discutível. A falta dele começa na encenação literal, própria das crianças, do jogo de palavras com o nome da empresa. Até porque, na mesma linha de raciocínio, Vai Bater poderia ter alguém a fumar algo que lhe turva a vista, ou um nabo a tentar estacionar um carro…Mas não. O casal optou pelo seguro: homem bate na mulher e depois beija-a, como que a pedir perdão ou a dizer-lhe para não atribuir muita importância à coisa. E ainda estranharam que representantes de apoio a vítimas de violência doméstica fossem os mais indignados com o vídeo. Aliás, a reacção de Mónica e Rubim às críticas é exemplar: em vez de um prudente silêncio, respondem à indignação com indignação, chamando-nos estúpidos, por não percebermos que se trata, apenas, de um humor bem-disposto e inofensivo. Como inofensivo seria, quero crer, um outro vídeo com uma violação ou um arraial de pancadaria numa minoria étnica. Não me entendam mal: sou o menos politicamente correcto possível, e aprecio uma boa dose de humor negro e arriscado. E não considero ninguém a salvo em nome de uma boa piada. Mas a expressão “boa piada” faz toda a diferença. E o tempo, conhecido como timing. O que fez, por exemplo, que durante muito tempo não houvesse um único humorista a fazer piadas com o 11 de Setembro. O vídeo do casal não tem piada nem timing. O timing é de quem anda tão absorto nos seus “projectos”, tão ocupado a comparecer em eventos onde se comem croquetes de borla e se recebem relógios e telemóveis, que não lê uma única notícia sobre os assustadores números de violência doméstica, que crescem a cada ano em Portugal, com consequências cada vez mais catastróficas e definitivas. Mas o casal, ao que leio, está muito satisfeito com o resultado, porque houve “montes de visualizações” do vídeo. E as discussões tornaram o vídeo “polémico”, logo, apetecido. OK. Se calhar estou enganado, e é de empresários destes que o País precisa.