
1. Se há ideia que se reforça em tempos de crise apertada é a desconfiança em relação à classe política, seja qual for a cor do símbolo. Bombardeados por medidas de austeridade sem precedentes, com partidos a acusarem-se mutuamente pela génese e desenvolvimento da crise, os portugueses, confundidos, tratam de generalizar e distribuir as culpas: e assim se eterniza a ideia de que “eles são todos iguais, só querem poleiro, etc.” Análise exagerada e injusta? Eventualmente. Mas cabe à classe política dar uma resposta que abafe estes fantasmas. Ora o que se começa a desenhar é muito em sentido contrário. E parece irresistível a política como jogo, com menosprezo perigoso pela situação actual do País. Não faltaram, no passado, momentos em que a estabilidade política se precipitava de súbito, em que governantes abandonavam o barco, em que oposições tanto protestavam que conseguiam antecipar eleições. Mas se nem sempre vivemos num mar de rosas, nunca antes o País esteve em situação tão delicada como hoje. E é esse estado de coisas que deveria fazer reflectir e travar ânsias da oposição ou desistências do Governo. Porque nunca como hoje o que se passar cá será lido e analisado lá fora, sobretudo por quem tem hoje Portugal nas mãos. Até há pouco tempo, havia sinais de compreensão e respeito pelo perigo, com o primeiro-ministro a garantir que levará o seu mandato até ao fim da legislatura, e o líder do maior partido da oposição a ser o primeiro a afastar cenários de antecipação de eleições. Mas em poucas semanas tudo parece ter mudado. Ou por decisão própria ou por conselho dos seus mais próximos, António José Seguro já avança para desafio frontal ao Governo, já diz que está pronto para derrotar o PSD. Por seu lado, Passos Coelho dá também os primeiros sinais de que poderá ele próprio abandonar o barco, caso lhe sejam colocados demasiados e insuperáveis entraves à política que quer seguir. A grande questão, aqui, é que nunca como agora foi preciso pensar duas ou três vezes antes de se pensar na tradicional alternância precipitada de poder entre os dois maiores partidos. Até porque foi a fórmula das últimas décadas, e os números, na sua frieza, mostram que nunca foi por aí que o País evoluiu. Por tudo isto, concordo com o que tenho ouvido de alguns comentadores. Talvez seja tempo de pensar, de forma fria e cautelosa, numa terceira via que, curiosamente, possa até dar uma pequena vitória a ambas as partes. Ou seja, nem eleições antecipadas nem este governo continuar exactamente como está. O que se poderia conseguir com uma profunda mudança no Executivo, que traga outras políticas que não apenas o empobrecimento sem fundo, mas que, afinal o mais importante, travasse o ímpeto de mais umas eleições, mais campanhas, mais debates, mais gastos de rios de dinheiro, com o espectáculo de instabilidade e insegurança que isso demonstraria aos credores do país. É certo que nunca como hoje os partidos estiveram tão amplamente dominados por políticos profissionais, no sentido que desde as juventudes partidárias que andam ansiosos por jogarem este jogo. E claro que não há nada mais aliciante no jogo político do que uma estratégia de campanha e a excitação da noite eleitoral à espera de resultados. Mas julgo que o País não está para jogos.
2. Na semana passada, perguntei-me como viria José Sócrates no regresso após o seu longo silêncio. Pelo que vi e ouvi, veio exactamente como partiu. Absolutamente igual, como se tivesse sido ontem a sua admissão de derrota eleitoral. As mesmas ideias repetidas vezes sem conta, a mesma postura beligerante e desafiadora, agora com o bónus de ir mais longe nos acertos de contas, nomeadamente com Cavaco Silva. Sócrates não teria muito a perder (e talvez tivesse pontos a ganhar) em assumir que terá cometido erros, que poderá ter calculado mal, que poderá ter corrido riscos que não se aconselhavam. Mas está visto que será sempre o incompreendido e injustiçado, o homem que afinal tinha a solução para os nossos problemas, mas a quem a crise internacional e umas eleições precipitadas tiraram a oportunidade de nos salvar do resgate em que nos encontramos. Cada um tire as suas conclusões.