
E eis que reparo que tenho com a Selecção de futebol um pouco da relação que reservo aos meus filhos ou aos meus colegas da SIC. Tolero melhores ou piores resultados, até porque são sempre fruto de inúmeros factores, mas sou espartano no empenho e esforço. Ou seja, convivo mal com preguiças. Pode o resultado do exame da minha filha não ser o que ela ambicionava, desde que a tenha visto estudar, deitar cedo e preocupar-se. Pode a reportagem de um colega meu ter resultado fraquinho nas audiências: se eu tiver visto dedicação, trabalho, vontade de fazer diferente, capacidade de rentabilizar o material que tinha à disposição, terá sempre o meu incentivo. Ora o que me andava a enervar na Selecção era, precisamente, que não via uma coisa nem outra. Depois do sofrimento para atingir esta fase final do Europeu, os jogos particulares de entretanto, os ditos “de preparação”, foram de uma miséria que parecia não nos preparar para mais nada senão para começarmos já a arrumar as botas. Mais: parecia-me estar diante de uma histórica falta de ambição, de uma aceitação da mediania, como se a proeza já estivesse realizada, e fosse somente termo-nos apurado para a fase final. Como se isso fosse já tão bom, que tivesse consumido todas as energias, e pior, todos os desejos. Quando o raciocínio deveria ser “já que chegámos até aqui, porque não tentar agora chegar mais longe, passo a passo, quem sabe até ao título?”. Ainda por cima quando a Selecção já está tão longe daquela tibieza dos anos 70 ou 80, quando os nossos jogadores pouco conheciam do futebol estrangeiro. Hoje, a esmagadora maioria dos nossos jogadores vive e joga fora do País, ao mais alto nível. Conclusão simples: um Euro não tem por onde lhes meter medo, já que vão encontrar inúmeros jogadores que defrontam todos os anos, quando não são colegas de equipa de alguns dos melhores. Mas falava eu do desconforto que deixaram aqueles jogos com a Macedónia e Turquia, muito mais pela atitude do que pelo resultado. Temia-se, pois, o pior, e logo quando o sorteio ditava que nos estreássemos com a Alemanha, que tem mais de tropa do que de equipa, e que passa essa maneira de estar de geração em geração: frieza, paciência, trabalho verdadeiro de equipa e a vitória como único – mas mesmo único – objectivo. E que vimos nós? Bom, começando pelo fim, concluímos que continua bem viva uma das mais antigas piadas sobre o futebol, que explica que se trata de um jogo onde estão onze contra onze e no fim ganha a Alemanha. Mas vimos uma equipa portuguesa que parecia… uma Selecção a jogar na fase final de uma grande competição. Sim, é certo, os mais cépticos poderão dizer que lá continuavam as tatuagens, as poses estilosas, os cabelos da “moda”, as chuteiras fluorescentes. Mas o comportamento foi, finalmente, de batalhão disciplinado e concentrado. Do primeiro ao último minuto a jogar de igual para igual, sem medos. Depois… Bom, depois um pouco do infeliz costume. Falta de frieza em momentos-chave e falta de sorte. Sim, falta de sorte, desta vez há que admiti-lo, e lembrar que não haverá um único campeão sem ela. Resultado: uma derrota, zero pontos, e o tempo cada vez mais curto: o costume. O que faz com que cada jogo seja agora, de facto, uma final, uma montanha para trepar. No dia em que esta revista sai para as bancas jogaremos com a Dinamarca. Uma nova derrota é o adeus antes do cair do pano. Mas uma vitória relança tudo. Mas falo, atenção do resultado. Por mim, gostaria de uma vitória e da esperança acesa, não o escondo. Mas isso é o capítulo da alegria. O orgulho trabalha-se com outro material. E o orgulho, diga o resultado o que disser, será ver outra exibição como a que vi, aquele esforço, aquela concentração alheia aos ruídos, aquela capacidade de perceber que se trata de uma oportunidade histórica, e perceber também o mais importante: que vestir aquela camisola é vesti-la por um povo e não por um contrato. Se vir isso, dar-me-ei por contente. Sobre o assunto, voltamos a falar daqui a uma semana, não tenho dúvidas.