1 A douta decisão do Tribunal Constitucional não trouxe grandes surpresas, se pensarmos que três meses de espera dificilmente produziriam uma estrada aberta para o Governo. Ou seja, estava bom de ver que viriam por ali normas chumbadas. A grande questão seria, naturalmente, saber quantas, e quais. Mas era por demais evidente que enfrentaríamos um dilema dos mais difíceis, daqueles em que ficamos inclinados a perceber ambas as partes em confronto. Explicando: por mais que nos revoltemos contra a austeridade, já estamos (ou devíamos estar) numa fase em que temos de entender que não haveria grandes alternativas para um Governo nesta altura, seja este ou outro. Acresce que o Governo não está só a governar para nós, está, e sobretudo, a governar para a Europa ver que nos vamos portar bem daqui para a frente. Portanto, tudo o que possa emperrar esse processo são más notícias para o bom aluno, que receará que o professor não goste. De facto, a troika não levou as mãos à cabeça mas já fez saber que a decisão do nosso Constitucional não lhe agradou, pela incerteza acrescida sobre a nossa capacidade de honrar compromissos. Mas, do outro lado, ainda se percebe melhor que um tribunal que tem por missão zelar pela Constituição que ainda nos protege não possa deixar passar atropelos pela simples razão de isso não agradar lá fora. Se assim fosse, a nossa independência não estaria apenas ameaçada, seria já palavra vã. E assim decidiu o tribunal, olhando, como dele se espera, apenas para a frieza da Lei, e fechando os olhos e ouvidos a conjunturas particulares da actualidade. Era, pois, um dilema à partida, que origina outro dilema à chegada. Como vai agora o Governo arranjar dinheiro sem a possibilidade de ir buscá-lo aonde o tribunal disse que não pode ir? Aguardamos as soluções, com uma angústia acrescida, porque aprendemos a perceber que, no limite, acabarão sempre por ser os trabalhadores a pagar a fava. E aguardamos para saber, com expectativa, se vamos perder mais tempo e dinheiro com eleições antecipadas, agora que se percebe que a gravidade da emergência nacional desaconselha simples alternativas de poder, que antigamente davam a ilusão de poder mudar alguma coisa, mas que raramente o fizeram de forma notória. Sendo que, não tenhamos ilusões, seja quem for que governe, terá as mesmíssimas algemas financeiras que não nos deverão tirar tão cedo.
2 A saída de Miguel Relvas é o retrato da sua passagem pelo Governo: duvidosa escolha de palavras, pose tensa, protagonismo fora de tempo e ocasião. A pose não necessita de explicação, estava lá, como sempre esteve, no sorriso nervoso com que sempre se apresentou, como se ruminasse constantemente uma qualquer estratégia agressiva ou de vingança, por razões que só o próprio saberá. Fora de tempo porque não se percebe a pressa de anunciar a sua saída na semana mais difícil para Passos Coelho. Se já discutira com o chefe do Governo a saída há semanas, porque não sair logo, ou esperar que o vento acalmasse um pouco depois da decisão do Constitucional? Por mais que o próprio negue, resta a explicação da polémica licenciatura, que Relvas saberia estava para rebentar na sua forma mais grave: suspeita tão grande que o Ministério Público avalia uma investigação. Parece tão óbvio que se torna insultuoso ouvir o demissionário fugir a sete pés do assunto, não o abordando nem de raspão. Como foi triste ouvi-lo escolher outro tom de discurso, desde a exposição pública da sua influência no percurso de Passos Coelho (só faltou exigir–lhe ali pagamento pelo que fez por ele), como a espantosa ideia de que foi em tudo um injustiçado que “a História se encarregará de julgar”. Raramente ouvimos tamanho convencimento em primeiros-ministros ou Presidentes da República, e já seria duvidoso; ouvi-lo de um ministro que foi constantemente alvo de polémica e que se transformou no alvo mais remodelável é… estranho, para dizer o mínimo. Uma nota curiosa, senão significativa: no auge da polémica com a licenciatura, os jornalistas pediram declaração aos responsáveis da Lusófona. Um dos responsáveis, além de defender a legitimidade de Relvas, tratou também de defender o prestígio da sua instituição. Só foi pena que afirmasse que a sua universidade é das “melhores preparadas”. Um erro básico de Português não poderia ter escolhido pior ocasião.