
É melhor começarmos já a entrar numa realidade simples, mas assustadora. Aquela que quisemos adiar estes últimos dois anos. Sim, aquela em que não quisemos pensar. Tão simples quanto isto: não estamos a atravessar uma crise, passámos de um universo para outro, e o antigo, provavelmente, não o veremos mais. Já ouvimos falar do início do fim da crise, já ouvimos que seria afinal em 2014, depois daqui a três anos com sorte, mas cada nova previsão vem agora com a avassaladora âncora de um futuro eterno em tudo igual ao de hoje. Basta ouvirmos bem que a nossa dívida vai demorar décadas a pagar, ou seja, os nosso filhos e netos continuarão afectados. E isto se entretanto não nos endividarmos mais, e continuarmos com a austeridade. Contas feitas, é melhor habituarmo–nos. Mas esta maré de crise é medida, exclusivamente, pelo dinheiro, o que já não há e o que deixou de haver, o que se tinha e já não se tem. Sendo absolutamente essencial (e não há demagogia que o possa negar, até porque muitas vezes é a diferença entre passar fome ou não), não é a única medida de uma sociedade. Há muitas outras, igualmente essenciais, e que, bem vistas as coisas, não dependem por um segundo da crise ou do desafogo económico. A educação e respeito pelos outros, por exemplo. Com a calma e serenidade que trazem a experiência, já há muitos anos que, felizmente, não me tem apetecido esbofetear alguém. Muito menos passar do apetite ao acto, naturalmente… Mas ainda há surpresas desagradáveis, que são tão estúpidas e desnecessárias, que fazem perder a paciência a um santo. Num centro comercial, um destes dias, encontrava-me dentro do carro acabado de estacionar, porque entretanto tinha atendido uma chamada importante. Centro comercial que é, apenas, um dos maiores do País. Ou seja, com parques de estacionamento a condizer. Três pisos gigantescos, que dão quase para abrigar uma cidade inteira. Do sítio onde me encontro avisto bem a entrada para o centro, as portas de vidro antes das escadas rolantes. Mesmo ali à frente, como é da praxe (e da Lei) estão os lugares para deficientes. E eis que chega um carrão vistoso, que estaciona sem uma hesitação. Convém dizer que contei, pelo menos, uns oito lugares disponíveis, a poucos metros. Mas quem vinha a conduzir nem tentou qualquer outro sítio. Até aqui, nada de anormal. Caso, obviamente, daquele carro saísse alguém deficiente. Continuo ao telefone, dentro do carro. Não estou particularmente atento, mas a cena desenrola-se mesmo na minha linha de vista, impossível não observar. A porta abre-se, uma perna sai cá para fora… mas imediatamente recolhe outra vez, e a porta volta a fechar-se. Que se passa? Então percebo. A porta fecha-se, nitidamente, porque se ouve as vozes de um casal que se aproxima do local. Ou seja, a porta fecha-se porque se aproximam pessoas. Testemunhas, para dizer melhor. Porque assim que o casal desaparece dentro do centro, sai finalmente alguém do carro estacionado no lugar para deficientes: uma senhora dos seus 40 anos, vistosa como o carro que conduz, com ar apressado e orgulhosa da sua saia e casaco de marca, mais a sua carteira de pele. Fecha o carro, olhando em redor, não vá alguém estar a vê-la. E avança, com o ar que julga mais imponente, para dentro do centro. Sim, não há a mínima dúvida. Juntando todas as peças, torna-se óbvio que entrou no parque já a pensar estacionar em lugar que sabe que estará reservado a deficientes (não tentou outro). Sabe que está a fazer algo errado, basta lembrar que não quis testemunhas (ou seja, não se tratou de uma qualquer distracção, que acontece a qualquer um). E percebe-se, em todo o enredo, todos os seus passos, que não é, obviamente, a primeira vez que faz isto. Será, certamente, todo o seu procedimento habitual. Não sei bem, ainda hoje, como classificar este tipo de pessoas que demonstram um absoluto desprezo pelo próximo. Pergunto-me se algum dia, neste ou noutro centro, alguma pessoa com deficiência terá tido de percorrer um longo caminho porque a senhora lhe terá roubado o lugar. É o mais provável. Como o mais provável será que esta senhora não terá nenhum deficiente na sua família. Há demasiadas pessoas assim: incapazes de olhar a realidade para além da sua vidinha, pessoas que só aprenderão o que custa uma desgraça quando alguma lhe bater à porta. Aqui não há crise que explique. Pessoas assim serão sempre isto, este asco. Com tudo isto, até apetece arranjar-lhe uma desculpa… às tantas estacionou naquele sítio porque sabe, no fundo, que (ela sim) é uma verdadeira atrasada mental.