
A tinta que para aí correu com as decisões das televisões: se há tantas restrições e regras na cobertura da campanha autárquica, então não se faz nada. Era uma decisão que tardava, em meu entender. Era preciso, de uma vez por todas, colocar a nu a insanidade e falta de sentido prático de uma lei totalmente desajustada aos nossos dias. Até se compreende a sua génese, uma preocupação com a igualdade de tratamento. Mas a inteligência de uma nação mede-se também, e em grande medida, pela sua capacidade de se adaptar aos tempos.
A questão é muito simples. A realidade partidária mudou, sobretudo no que diz respeito ao número de forças partidárias. Quando chegamos às autárquicas, então, é o reino do superlativo, tantas são as possibilidades de voto, porque aos partidos somam-se as coligações entre partidos, os independentes, os movimentos de cidadãos. Pretender que as televisões, qualquer uma, tenha capacidade de cobrir todos os acontecimentos de toda a gente em todo o lado, é não perceber nada. Primeiro, da real capacidade das estações. Depois, e não menos importante, da capacidade de atenção e paciência do público. Se fosse caso de se fazer exactamente como a lei manda (e em parte gostaria de o ver feito) seria virar o feitiço contra o feiticeiro, e uma forma de os partidos verificarem, de uma vez por todas, que o que pensavam ser uma vantagem só jogaria em seu desfavor: estaríamos todos enjoados, ao fim de pouco tempo, e com nenhuma pachorra.
Ainda mais injusto é impor às estações privadas, que vivem exclusivamente do seu lucro, conseguido à custa da conquista de espectadores, as mesmas regras que, enfim, serão admissíveis no serviço público. Mas o simples facto de não haver aqui distinção de deveres (ou de direitos) torna claro que a conversa sobre a missão da RTP é, há muito, uma falsidade encarada com normalidade por todos. Seriam, só em Lisboa e no Porto – repito – só em Lisboa e no Porto, dezenas e dezenas de debates de todos contra todos. Não haveria mais nada nas televisões que não fossem debates, com forças que nasceram só para estas eleições a terem o mesmo peso e direito de partidos que nasceram no 25 de abril, ou mesmo antes.
A mesma visibilidade a quem tem hipóteses reais de vir a gerir os destinos de uma câmara, e quem apenas concorre… precisamente para ter uns minutos de visibilidade na comunicação social. Não me entenda mal: tenho sido o primeiro a criticar a pobreza da nossa actual classe política, e sobretudo a mediocridade entediante do jogo partidário, onde, à vista de todos, parece apenas haver uma alternância de poder entre uns e outros para que nesse período possam usufruir de regalias e estabelecer os contactos de poder que tanto jeito dão no futuro (não temos grandes notícias de quem tenha passado pela política e depois cai no desemprego, pois não?).
Sendo isto misterioso, não o é menos verificar o tempo e recursos que milhares de pessoas ocupam por esta altura nos mais variados pontos do país, com as suas candidaturas votadas ao insucesso mas sempre a prometer o progresso, a obra, o destino tantas vezes adiado mas que agora é que é, a prometer as proximidades, os diálogos, os centros de saúde, o emprego para todos na região. Experimente fazer as contas, muito por alto, aos gastos em cartazes, bandeirinhas, caravanas a gastar gasolina, canetas e autocolantes. Um pagode de desbarato que termina abruptamente no domingo sem grandes consequências ou relevância. Ficam, para a risota geral, os vídeos e cartazes inclassificáveis que circulam por aí na Internet. É pouco.