1 Infelizmente, tenho escrito sobre violência a que chamam doméstica demasiadas vezes. Sinal de que as notícias continuam e, também, que as sucessivas campanhas oficiais não funcionam. Penso que a última vez que referi o assunto foi, precisamente, porque tinha visto uma campanha que me enervou, pela sua óbvia irrelevância: uma foto de uma mulher nua, “mascarada” de morta, como se estivesse numa morgue com inúmeras feridas. São os criativos da publicidade no seu melhor, cheios de conceitos e estratégias e mensagens, a que chegam depois de analisarem os resultados de conversas nos “focus-groups”. É o pessoal da campanha de “choque”, que deve achar que os animais que espancam mulheres ou as matam vão ficar muito impressionados com aquilo. A campanha, como é óbvio, só choca quem tem alma que se choque com isso, ou seja, é um tiro completamente ao lado quando não se chega ao “público-alvo”. Mas se essa me enervou, a que nesta altura está nas televisões e revistas dá-me vontade de levar as mãos à cabeça. Quem pensa naquilo, quem aprova? Como não há uma única voz, em todo o demorado processo, a perceber o fiasco? Esta consegue ir mais além do que a outra na sua irrelevância, pura e simplesmente porque uma significativa quantidade de cidadãos…não a percebe. Uma cena muito gira, muito bem produzida e fotografada, com um homem muito giro e uma mulher atraente que se beijam. Mas, em fundo, em vez de ouvirmos violinos, ouvimos sons de discussão e agressões. Em cima deste momento muito inovador aparece a frase: “Esquecer a primeira agressão é tão difícil como esquecer o primeiro beijo”. A sério? Será que as vítimas de violência não o sabem? Até quando se farão campanhas dirigidas aos que menos precisam delas? Uma campanha brasileira, ao menos, centra-se no essencial no que respeita ao público-alvo: uma série de fotos muito simples, em que homens famosos, e reconhecidos por alto grau de masculinidade, seguram cartazes que dizem “homem que é homem não bate em mulher”. Pelo menos dirige-se directamente aos homens animalescos que batem, agridem e matam. É pelo menos uma campanha que os olha nos olhos e lhes chama cobardes assassinos. Bem sei que, no limite, estas campanhas se fazem para que o problema seja falado na comunicação social, e bem sei que quando elas vão para o ar aumenta o número de mulheres que ganha coragem de denunciar o seu caso. Muito bem, e depois? O que se segue? Segue-se que o “sistema” não acompanha as boas intenções. Segue-se que muitos dos agressores nem sequer ficam em prisão preventiva, segue-se que os que são condenados enfrentam penas irrisórias, o que deixa as mulheres vítimas numa permanente angústia: a de saberem que aqueles que elas denunciaram não demorarão muito tempo a sair da prisão, juntando ao seu instinto de besta um desejo de vingança pela pena que tiveram de cumprir. Por isso me parece óbvio e claro que o importante para tentar diminuir o número de casos escabrosos seja mostrar aos agressores que os esperam penas terríveis, de praticamente uma vida inteira atrás das grades. Sem esse receio, sem temor pelas consequências, estes animais continuarão calmamente a agredir e a matar. E a rir-se das campanhas que vêem na televisão.
2 Outros que necessitam de penas a sério são os incendiários. Inacreditável a dimensão do crime que perpetuam, sobretudo se pensarmos que não podem fazer ideia, quando iniciam um fogo, se vão fazer arder um quilómetro de mato ou se vão destruir casas e matar pessoas. Não há qualquer classificação para este crime hediondo. Folheando um jornal, na coluna que cita cartas de leitores, vejo que alguém escreveu uma possível solução, embora estivesse destacado como se o jornal lhe quisesse chamar maluquinho ou exagerado justiceiro popular. E sinceramente não sei porquê. Dizia o senhor que lhe parecia lógico que os incendiários, além de passarem muito e muitos anos na prisão, deveriam ter, sempre, como dever anual, andar a limpar as matas. Viu-se, este ano, como os bombeiros apontaram como principal problema o estado em que se encontravam caminhos e florestas. Logo, há essa necessidade imperiosa, mas parece que falta pessoal. Bom, se dermos as enxadas e as pás aos incendiários e aos que matam mulheres, parece-me que ganhamos umas boas dezenas de ajudantes. Parece-me só vantagens. Mas não creio que vá acontecer. E creio que daqui a uns tempos estarei a escrever sobre as mesmas coisas.