
Encare como uma espécie de inquérito de Verão: o que tem a ver o acidente mortal provocado por um candidato autárquico embriagado e uma senhora do Norte que ganhou o Euromilhões? São duas histórias absolutamente diferentes, mas, se me conceder a sua paciência, podem ambas arrepiar-nos sobre a classe política, ou seja, sobre o nível de pessoas que decidem as nossas vidas. A primeira história é daquelas que não julgamos possível. Quando os olhos dos portugueses vigiam de perto os políticos e sua capacidade e dignidade, quando se aproximam a passo largo eleições autárquicas, eis que um candidato, que já sorri em cartazes com promessas, se embriaga, pega no volante de um carro desportivo acompanhado de jovens e se mete a acelerar na estrada, pela noite fora. Desastre iminente, desastre consumado. Há pior? Há. O candidato, perante o quadro de desgraça que acabou de provocar, abandona o local do acidente e só regressa mais de uma hora depois. É de tal forma grave a sucessão de comportamentos que prefiro não entrar em muitos mais pormenores, sob pena de escrever termos que podem fazer corar os mais sensíveis. Não sei o que aí vem, mas acredito, infelizmente, que se tentará fazer esquecer a morte de um jovem e o estado grave de outro rapidamente. Por mim, não esquecerei tão depressa o nível de pessoa que se preparava para se fazer eleger para cargo público. Foi preciso esta ignomínia para os habitantes de Lagoa não correrem esse risco. O que me leva à senhora do Euromilhões. Li atentamente uma das inúmeras reportagens sobre ela, já que (e aqui vem o primeiro pormenor) não se escondeu, muito pelo contrário, fez questão de aparecer a esfregar-nos as notas na cara. Gostando eu de pensar que há algo de justiça da sorte quando o Euromilhões sai a pessoas que dele muito precisam, quero também deixar bem claro que me faz muita impressão verificar a imensa quantidade de gente que cedo prova não ter estofo moral, humano e social para ficar com tanto dinheiro nas mãos. Parece-me que se deveria ter também carta de rico, da mesma forma que há requisitos a cumprir para se ter carta de condução. A senhora, ao que li, comprou meia dúzia de BMW de uma vez para distribuir pela família, mais uns não sei quantos imóveis, dos quais destaco, sem surpresa (quase faz sorrir), que se apressou a comprar um prédio completo na Póvoa de Varzim. Porquê? Grande estratégia de investimento, faro comercial que só esperava oportunidade, por estranho que nos pareça a opção?… Não. Simplesmente porque é o prédio em que trabalhou muitos anos nas limpezas. Seria quase comovente se não tivesse por trás o inevitável mecanismo de vingança social que empurra muitos ex-pobres a mostrarem o seu dinheiro novo ao patrão. Foi de muitas situações destas que nasceu o “não sirvas a quem serviu”. Talvez volte ao assunto no futuro. Por hoje, quero só referir onde se tocam as histórias que atestam a perigosa pobreza franciscana da nossa política. Acontece que os filhos da nova milionária garantem que foram sondados pelos dois maiores partidos, PS e PSD, para se filiarem e candidatarem-se. Vejamos: porque de repente se descobriu neles uma aptidão extraordinária para defenderem a causa pública, uma sensibilidade sem igual para provir às necessidades das populações? Nem é preciso responder. Os partidos viram dinheiro vivo, e uma notoriedade na terra que pode render votos. Isto e só isto. E assim são escolhidos os candidatos em quem nos dizem para votarmos.