
Começo por lembrar uma cena memorável do filme “Bananas”, a estreia de Woody Allen. Para quem não conhece, trata-se de uma sátira às revoluções de esquerda na América Latina. Podia ser qualquer país, mas percebemos que o líder revolucionário é um sósia de Fidel Castro. Consumada a vitória sobre os porcos capitalistas, o grande líder discursa às massas excitadas. Começa por anunciar qualquer coisa como a educação passará a ser acessível para todos. Gritos de júbilo e palmas. Agradado com o efeito das suas promessas, avança, e proclama que o pão passará a ser grátis. Gritos ainda mais estridentes, palmas histéricas. Entusiasmado, pensa numa nova medida. E então grita que a língua oficial do país passará a ser… o sueco. O que, obviamente, confunde o povo, que não percebe bem, mas ensaia mais palmas, embora mais tímidas. Lembrei-me desta cena na semana passada, quando vi e ouvi a nossa presidente da Assembleia da República. Senhora respeitável que viveu um dia mau. Se bem se recorda, a sessão plenária foi interrompida por protestos veementes das galerias. Algumas dezenas de cidadãos indignados com os políticos, em desespero com a crise. Sim, muitas vezes serão situações planeadas e instrumentalizadas por partidos ou sindicatos. Mas para o caso, imaginemos que não, porque a crise é bem real, e o sofrimento de milhões não pode ser ignorado. Assunção Esteves, pelos vistos, está farta destas cenas, que se têm repetido no último ano. Só alguma fadiga poderá explicar que tenha abandonado a sua habitual fleuma de sorriso simpático e compreensivo e tenha decidido “mostrar as garras”. Primeiro, grita às pessoas, “retirem-se imediatamente”. Os protestos continuam e a presidente sobe o tom de voz, como quem obriga a criança malcriada a comer a sopa. Grande sururu até a sala finalmente acalmar. É então que Assunção Esteves vive o seu momento Woody Allen. Nitidamente orgulhosa da sua veemente postura, discursa aos deputados, proclamando que “não fomos eleitos para não sermos respeitados”. Palmas, da esquerda à direita, o que é raro. A presidente gosta do que vê e ouve. Voz mais dramática ainda para frisar que “não fomos eleitos para ter medo”. Palmas mais fortes e quase todos os deputados de pé, que nesta questão está visto que se sentem todos no mesmo barco. Vem então o momento que marca a fronteira entre sabermos quando parar ou atirarmo-nos para fora de pé. Assunção quer mais uma frase, mais retumbante, porque está a saborear o momento. Escolhe então uma citação, para dizer que “não podemos permitir que os nossos carrascos nos criem maus costumes”… Ainda há palmas, embora me pareça que muitos não ouviram, outros não perceberam, outros não entendem do que está a falar. É tristemente simples: está a citar Simone de Beauvoir, que lançava um aviso à classe política francesa que se preparava para voltar a ter as rédeas do país após a Segunda Guerra. Os carrascos, bem entendido, eram os nazis entretanto derrotados. Eram, sim, literalmente, carrascos. Daí ser ainda mais lamentável que a presidente, ao procurar justificar-se mais tarde, tenha dito que se limitara a usar…uma metáfora. Eu quero crer que uma figura da sua estatura intelectual sabe perfeitamente o que é e o que não é uma metáfora. O mal estava feito, mas talvez tivesse sido bom aproveitar para dizer, enfim, que escolhera mal as palavras. Porque o risco de quem vive sempre a fazer trocadilhos com ditados populares ou citações de enciclopédia, como se sabe, é dar a entender que não se tem muitos pensamentos próprios.