Infelizmente, já vi e ouvi falar das mais diversas maldades sobre animais. Seria de supor, portanto, que já sou difícil de surpreender. Mas eis que o mundo me reserva ainda surpresas. Deram-me a ver umas fotos que circulavam por aí, parece que nas redes sociais, que haviam sido guardadas por um jovem toureiro, nas quais se vê uma cena que pensei transportada da Idade Média. Três cães possantes atacam o que me parece ser um touro jovem (não sei bem a terminologia, mas para o caso é o que menos interessa). Digo atacam porque não me suscita a mínima dúvida, embora o responsável tenha outra explicação, e aqui é que a coisa entra no domínio do fantástico, aqueles diálogos e ideias que dariam para rir se não fossem de chorar. Por partes: se ouvi bem a história, as fotos conheceram uma divulgação extra porque alguém se indignou e quis, digamos, denunciar. É esta indignação, ao que parece, que leva a que o toureiro se sinta na obrigação de se “justificar”. Responde então que as fotos são antigas, que não as devia ter guardado, ou partilhado, que não se trata de promover lutas entre animais, mas que os cães entraram “inadvertidamente” no recinto. E que compreende que muitas pessoas tenham ficado chocadas. E que as fotos não honram a sua profissão e a sua postura. Muito bem. Não é preciso ser investigador do FBI para nos ocorrerem duas ou três perguntas. Como é que alguém que diz compreender (agora) a indignação que provocou, guardou ou partilhou fotos deste calibre? Quantas mais haverá, das quais não viremos a saber, parece-me uma legítima pergunta. Segundo ponto: supondo que seria verdade que os cães entraram inadvertidamente no recinto, ou seja, de repente, ou seja, deixando quem viu espantado e preocupado… o tempo que se perdeu a preparar a câmara e ir fazendo fotos (e que coincidência estar ali uma câmara quando os cães inadvertidamente entraram onde não deviam). Bom, dizia eu… o tempo que se gastou a registar o momento não teria dado para se afastar os cães do touro? E já agora, registar o momento para quê, com fotos tão nítidas… tão obviamente preparadas? Estes cães que entraram inadvertidamente fazem-me lembrar as estrelitas de televisão, obviamente fotografadas a 3 metros, na praia, muito nítidas, muito lindas, com a luz certa, a encolher a barriguinha, a mostrar o lado certo da silhueta… mas que manifestam a sua indignação porque foram “apanhados por um paparazzo”. Penso que devemos tanto acreditar nos cães que atacaram quando ninguém estava à espera como acreditar que algumas estrelitas não combinaram os flashes com as revistas. Há, apesar de tudo, a nota positiva de o jovem toureiro escrever que lamenta e que não se repetirá. Não faltaram vozes a reagir, dizendo que não acreditam, que só diz isso porque foi “apanhado”. Talvez. Mas ainda assim será melhor do que mostrar algum tipo de orgulho fanfarrão e zero de arrependimento. Tirando os pormenores do ziguezague de explicações e justificações pouco plausíveis, centremo-nos no essencial: aquilo existe, ou existiu. É demasiado vil para ter qualquer classificação numa sociedade civilizada. Quando estas questões surgem, não falta quem as queira reduzir, ou incluir, às diferenças entre culturas de cada classe social. Pelo amor de Deus, basta de rótulos de esquerda-direita, moderno progressista ou conservador quando a questão é verificar como nos comportamos com seres vivos. É um campo que está muito para além, ou muito acima, de divergências ideológicas ou partidárias. Podemos não sentir todos emoções positivas com os animais, não os queremos ter, atravessarmos a rua se vem um cão, não entender qual é o gozo de os levar a passear ou fazer-lhes festas, ou pura e simplesmente não querermos ser incomodados pela sua presença. Outra coisa completamente diferente é usarmos a nossa capacidade de domínio, controlo e inteligência para fazer mal, para fazer sofrer. E, como se não bastasse, retirar daí o prazer de ter uma foto para mais tarde recordar. Alguém que o faz envia-nos também o seu retrato. E não parece coisa deste século mas das trevas do tempo.
Cenas da Idade Média
Penso que devemos tanto acreditar nos cães que atacaram quando ninguém estava à espera como em algumas estrelitas não terem combinado os flashes com as revistas