
Tenho cada vez mais dificuldade em entender Vítor Gaspar e as sucessivas ocasiões em que gere mal o que diz e o que faz. E é pena, digo eu, porque, curiosamente, é dos políticos que mais terreno conquistou nos últimos anos para se tornar figura de peso com uma nova e positiva surpreendente atitude. Façamos o esforço de recordar a primeira vez que vimos e ouvimos Gaspar. Lembremos que no dia seguinte todos comentávamos que não sabíamos bem o que pensar, mas havia algo de positivo e esperançoso. Sim, ele tinha entrado com más notícias, e não poderíamos esperar outra coisa, mas tinha havido uma serenidade, uma frontalidade olhos nos olhos, uma cuidadosa escolha de palavras. Gaspar começou por nos dizer que enfrentávamos um quadro negro, herança do anterior Governo, que teríamos de atravessar ainda uma torrente de dificuldades, mas que fazendo assim e assado haveríamos de sobreviver, primeiro, e recuperar, depois. Destacou-se desde logo pela calma na voz, e assumiu uma postura entre o pai e professor, duas figuras que crescemos a escutar com atenção, ainda que nem sempre concordemos. Sobretudo, Gaspar parecia saber o que não sabíamos, e parecia saber, sobretudo, como nos tirar do lamaçal. Isto foi há dois anos. Mas o passar do tempo mostrou-nos um defeito que pode ditar o seu fim: excesso de coerência. Dito assim, parece estranho, mas só se não pensarmos que o grande político é aquele que sabe ler as curvas do tempo, que se adapta, que sabe escutar o mundo, para perceber se precisa de mudar ou não. O coerente ministro escolheu ser sempre o mesmo. E não percebeu coisas simples, como o facto de uma voz monocórdica de um discurso muito explicadinho poderem ser pedagógicos numa primeira fase, mas simplesmente irritantes mais tarde, quando o desespero se instala, quando vamos percebendo que há mil medidas anunciadas, para mais tarde se anunciarem mais mil, com a justificação que aquelas afinal não resultaram, e mais mil que não resolvem também. Uma vez que não é o seu “estilo”, Vítor Gaspar optou por nunca ter uma palavra mais humana em cada intervenção, tratando apenas de números e não referindo pessoas, num constante “tem de ser assim e não há nada a fazer”. Pior: além de nunca mostrar uma preocupação com os dramas que sucessivamente apresentou, em vez de ser mais acessível e compreensivo, tornou-se ríspido nas respostas às perguntas que o incomodam, e vai-nos sempre dando ao ar de quem está farto de jornalistas, que não têm nada melhor para fazer do que questionar as medidas que apresenta. Todos sabemos que tem sido isto, quando, de repente… o ministro resolve aliviar a tensão de uma declaração com uma graçola. Nunca sabermos se pensou nela sozinho, se alguém lha aconselhou, mas ficou claro que a levava na algibeira. Gaspar, aconselhado ou não, achou que seria boa ideia pedir desculpa, com ar grave antes do sorriso, porque tinha vivido uma semana terrível. Quando todos pensávamos numa de duas hipóteses (ou um problema sério familiar ou a consciência das dificuldades que faz o povo viver) eis que o ministro nos pretende fazer rir com a sua costela benfiquista. Afinal, Gaspar viveu uma semana terrível porque viu o Benfica afundar-se perto da glória. Não sei se o ministro percebeu que, mesmo na sala, só arrancou meia dúzia de sorrisos tímidos e amarelos, ou se ouviu o ruído de indignação que terá percorrido os lares do País. A graçola é má por três razões muito diferentes, mas que, juntas, poderão fazê-lo lamentar um dia. Primeiro, está visto que quem não tem o “estilo” do humor não deve aventurar-se pelo caminho. Segundo, a péssima escolha de se assumir de um clube, quando sabe (ou deveria saber) que o futebol representa, infelizmente, um campo de divisões agressivas e emocionais entre os portugueses. Não entender que, naquele momento, a sua frase caiu pessimamente a todos os que não são benfiquistas é não entender minimamente em que país vive. Terceiro, o mais triste: perder a oportunidade de justificar a sua semana terrível porque não consegue parar de pensar nos imensos sacrifícios que milhões de portugueses estão a ser obrigados a fazer. Seria mentira, como está visto, mas politicamente mais hábil.