
1 Devemos olhar mais para as acções, mas a verdade é que nos regemos pelas palavras. Quando escolhemos um governo, por exemplo, temos de nos guiar pelo que nos dizem antes das eleições. As chamadas promessas, tantas vezes não cumpridas. No que diz respeito às palavras, Passos Coelho tem de encontrar uma base sólida. Goste-se ou não, não tem tido problemas de formular a verdadeira dimensão dos sacrifícios de cada vez que faz uma declaração ao País. Mas tem também permitido que se instale alguma confusão, ao não acertar agulhas com os seus ministros, ou ao permitir que falem antes do tempo. Lembramo-nos bem, quando no ano passado Santos Pereira já anunciava o princípio do fim da crise, e acenava-nos com uma luz quando ela, na verdade, não estava lá (o que todos verificamos hoje). Em tempo de crise profunda, convém profunda cautela. A Economia, atingida por tanta saraivada de incerteza, vai-se guiando pelas palavras. É por isso que se estranha as declarações da semana passada. Estranha-se se tiverem nascido de intenções boas e não de factos concretos. O ministro das Finanças disse-o, sem margem para dúvidas, na sua voz pausada de quem mastigou devidamente a importância do que vai dizer. Disse que chegou o tempo do investimento. Para médio entendedor, qualquer expressão que já não traga o termo “austeridade” já é boa notícia. A pergunta que fazemos, desconfiados, é no entanto muito simples: terão tanta certeza do que dizem? Se sim, significa que estaremos, finalmente, a tentar erguer-nos do fundo do poço (que não pode ser mais fundo). Como já estamos tão derrotados e tão desgastados, nem sequer esperávamos ouvir isto já. Mas se o Governo escolheu anunciar-nos o princípio do fim da crise, levanta de novo em nós uma esperança que estava moribunda, e essa esperança fará com que as expectativas se ergam de novo. Ou seja, o Governo atirou para cima dos próprios ombros uma responsabilidade que a partir de agora lhe vamos exigir. Se chegou o tempo do investimento é porque se acendeu uma luzinha ao fundo do túnel. É a palavra do Governo. É a estas palavras que nos vamos todos agarrar. Se também isto der uma volta, dificilmente os portugueses voltarão a acreditar neste Governo.
2 Será difícil para os benfiquistas dizerem o que é pior: se aquelas épocas em que ficam arrumados desde cedo, e cumprem calendário já de braços caídos, ou este pesadelo que viveram, de poderem ganhar tudo, e tudo perderem, sempre nos minutos finais. No campeonato das expectativas, este ano foi duro, doloroso, e quase impossível de aceitar. Os factos são o que são, mas as palavras de dirigentes e treinador tentam atenuar o sofrimento. Escolheram relevar que a grandeza do clube se mede pelo facto de ter discutido títulos em todas as frentes. Sim, é uma forma de ver as coisas. Não é qualquer equipa que mantém qualidade suficiente para se ir aguentando em tantas e tão desgastantes frentes. Mas o que fragiliza esta ideia é, curiosamente, a grandeza do Benfica. Ou seja, seria motivo suficiente de orgulho ser segundo se se tratasse de uma equipa de meio da tabela. Mas o Benfica joga para ganhar. É essa a sua motivação. Há, pois, que pensar se, precisamente porque chegou aos momentos decisivos, não deveria ter tido a dose extra de grandeza que faz os campeões. Não faço ideia se haverá grandes mexidas na equipa, a começar pelo treinador. Sei que há incentivo ao orgulho que os adeptos devem sentir, e que o trabalho realizado foi de qualidade e não há razão para se mexer numa máquina que está em movimento e cada vez mais oleada, apenas pela pressa de mudar, e recomeçar do zero. Sim, talvez, mas os adeptos estão em estado de frustração máxima, depois de estarem quase, quase a levantar três troféus, e verem, uma e outra vez, outros a fazerem a festa com que sonharam. Compreendem-se as palavras com que se tenta atenuar a hecatombe. Mas veremos se chegam, num clube que acabou por se armadilhar nas suas próprias características. Sucessivas direcções e treinadores falam de um clube habituado a vencer. É isto que é incutido aos adeptos. Não se admirem, pois, se for isto e nada menos que eles exigem.