
Era histórico antes, e foi épico depois. Não deverá haver, nos próximos longos anos, noite mais emocionante no futebol português. Mas o que se passou no Dragão no sábado, dia 11, tem também várias lições para a vida. Basta procurar. Comecemos pela designação “campeão”. Normalmente, é aritmética pura. Campeão é o que consegue mais pontos do que o adversário, no fim de uma longa e desgastante caminhada. É, portanto, o que acerta mais do que os outros. Será só isso? Permitam-me concluir que sim e não. Porque cada vez mais me parece que ser campeão é sobretudo uma questão de estofo emocional: é sobretudo não falhar quando não se pode falhar. Vejo isso em todos os grandes campeões das mais diversas modalidades, automobilismo, golfe, ténis. Voltando à aritmética, é lógico que no domingo, dia 19, fará a festa quem tiver conseguido o maior número de pontos. E até pode acontecer (difícil…) que o Benfica seja campeão. Até pode acontecer, como já aconteceu, que se perca com o principal adversário e se chegue ao fim com mais pontos. Já aconteceu na Alemanha, Inglaterra, Espanha. Mas aqui, perdoem-me, entra a questão do “sabor” do título, chamemos-lhe assim. Mourinho deu a entender que pensa da mesma maneira, quando, já campeão, confessava que ainda não digerira bem as derrotas com o Barcelona. É um raciocínio simples, e uma sensação que se percebe. É não querer imaginar que o grande rival possa dizer “pois, tiveste mais pontos do que nós, conseguidos perante os fraquinhos, mas quando jogaste connosco, perdeste”. O que nos leva de regresso a sábado, e aos caprichos de um calendário. Sabia-se, desde o início da época, quando se encontrariam Porto e Benfica. Sabia-se que a penúltima jornada seria o escaldante jogo do Dragão. Até poderia ser um jogo irrelevante, até poderia acontecer que um dos dois chegasse a esse duelo já campeão. Mas aconteceu precisamente o contrário: e o jogo decisivo era mesmo decisivo. Para os amantes do futebol, uma energia e emoção extras. Para as equipas, a oportunidade de provar, num só jogo, o valor de toda uma época. De provar, afinal, se se é campeão ou não. E parece-me, pelo que vi, que foi isto que faltou ao Benfica. Bem sei que há a enorme carga de jogos, e a tentação de gerir em cada jogo os compromissos futuros, mas se o calendário colocou no caminho um jogo para o título, esse jogo passa a ser uma final, e as finais, como tantos dizem, são para ganhar, e não meramente jogar. Aritmética, mais uma vez: pareceu–me ver o Benfica demasiado concentrado em contas, as que diziam que em caso de empate, continuaria com dois pontos de avanço, e resolveria o título em casa, com o modesto Moreirense. Raciocínio correcto, mas, pergunto eu, porque não pensar em ganhar, claramente, para resolver as coisas de uma vez, acabar com angústias, e ter o sabor especialíssimo de derrotar o principal rival, mostrando, sem sombra de dúvida, quem é campeão, para além do somatório de pontos? Até se entende as cautelas iniciais, perante um Porto que tem necessariamente de vencer. Mas a primeira parte, e grande parte da segunda, mostraram um equilíbrio que o Benfica poderia ter explorado com um pouco mais de genica, até porque se passou um largo período em que o Porto parecia já conformado. Mas como nada se passava, a dúvida permanecia, e um único golo podia ditar a diferença entre a glória e o abismo. O Benfica apostou nesta angústia até final, esperando respirar de alívio a cada falhanço do adversário. Esperou, e esperou. Apenas. Um risco tremendo, como se viu. Na última das últimas oportunidades, o Porto avançou como um foguete do inferno para o céu, e o treinador do Benfica deixou-se cair de joelhos. Lá vem a habitual ladainha que serve para tudo: o futebol é isto mesmo. Mas se todos sabem que é isto mesmo, fica apenas a diferença: o Benfica falhou precisamente quando não podia falhar, o Porto ganhou o jogo que tinha mesmo de ganhar. Ainda assim, nada está decidido. Estamos numa semana de nervos, mas, para além dos pontos, fica o “sabor”. Se o Benfica for campeão, terá de agradecer ao Paços de Ferreira, e lembrar que no confronto directo perdeu com o grande rival. Nesta gestão de emoções e riscos, momentos para se mostrar força ou saber ser táctico, ocorrem-me aqui várias lições para a vida de todos os dias. É uma questão de as procurar.