
1 Sim, é verdade que Paulo Portas não apareceu no domingo, dia 5, a desmentir categoricamente o Passos Coelho da sexta anterior, ou a colocar-se de fora, dizendo que não tem nada a ver com a austeridade galopante que asfixia cada vez mais famílias. Mas o simples facto de aparecer 48 horas depois do primeiro-ministro diz-nos que se passa algo na coligação, se não grave, pelo menos estranho. Pense-se o que se quiser de Portas, é indesmentível que vai refinando a sua habilidade política. As constantes viagens na condição de ministro dos Negócios Estrangeiros têm proporcionado o álibi ideal para não ficar na maioria das fotografias de momentos penosos de declarações cada vez mais pesadas. Não andando escondido, Portas tem passado despercebido quando acha que é melhor. Mas escolhe sempre um momento para aparecer, e marcar território, com uma agenda partidária que joga em duas frentes: garante aos portugueses que tem lutado para que as coisas não sejam tão dramáticas como têm sido, ao mesmo tempo que lembra constantemente a Passos Coelho, nas entrelinhas, que o peso do CDS que permitiu esta maioria pode de repente perder-se. O jogo tem sido claro, e Passos Coelho não parece ver nisto problema de maior, ou então vê e não gosta, mas tem de vergar-se àquele bocadinho assim de deputados do CDS, que parecem poucos mas têm feito toda a diferença em todas as votações parlamentares. Mas sendo o jogo claro, será curioso ver se será jogado durante muito tempo. Em condições económicas normais, sem este garrote da intervenção dos credores, não me admiraria que o CDS também visse com bons olhos eleições antecipadas, quanto mais não fosse para testar nas urnas se a sua táctica na coligação daria frutos, ou seja, procurar que os eleitores poupassem o CDS ao castigo que certamente quereriam infligir ao PSD. Quanto ao essencial, tendo já acontecido duas vezes, não será muito compreensível que Paulo Portas faça declarações sérias e oficiais após as mensagens de Passos Coelho. Senão, tudo isto parecerá o que já muita gente sussurra: não uma coligação mas dois governos: e dois primeiros-ministros.
2 Bem sei que há guerras que se travam com números, mas continuo, também, a viver de sensações, e penso que todos o sentimos um pouco. Por mim, podem vir os sucessivos ministros exibir-nos números da criminalidade violenta a baixar, que o que vamos vendo e lendo é perturbante e assustador. Não sei, pois, se o crime baixa ou sobe ou anda na mesma, sei que há cada vez mais crimes hediondos. Já aqui falei da violência doméstica (a propósito de uma campanha que me pareceu absurda e irrelevante), e continua a ser dos crimes mais generalizados, com a agravante de conhecer, hoje em dia, uma brutalidade quase sempre mortal. Começa a ser difícil contar todos os casos de violência, perdão, de homicídio doméstico, porque tem sido quase sempre o desfecho. Por mais que nos interroguemos, não conseguimos perceber como há tanta gente, quase sempre homens, que pelos vistos não se importa de ir para a prisão se for o preço a pagar por matar (ou mutilar, ou marcar) a mulher. Mas outro tipo crimes está também num crescendo descontrolado, aqueles que, ao contrário, nada têm de doméstico, mas são completamente aleatórios, o que faz com que sejam imprevisíveis, o que faz com que nenhum de nós esteja a salvo de estar no sítio errado à hora errada. Numa só semana, dois terríveis exemplos. No Estoril, um jovem é atacado na estação de comboios por um gangue, que não se contenta em agredir e roubar: terminam atirando o rapaz para a linha do comboio, sabendo que está inconsciente. Está visto que quiseram terminar a barbárie com um homicídio a sério. E com particular e agoniante gosto pelo macabro. A norte, no que devia ser a alegria da Queima das Fitas, um outro jovem é atingido por tiros “perdidos”. Perdidos? A verdade é que não morreu mais gente por acaso, quando um grupo de encapuzados entrou a disparar em todas as direcções. Do pouco que se sabe, leio que seria um gangue à procura de um rival de negócios da noite e da droga, como se estivéssemos no faroeste. O resultado? Mais uma família desfeita em dor, e perdida para sempre, pela estupidez brutal, mais uma vida que ainda se preparava para o futuro.