1 E pronto, depois de mil e um discursos vagos e redondos, daqueles que andam, andam, e terminam onde começaram, sem uma conclusão que se tire, Cavaco Silva acabou a época de rodeios e disse o que quer e, sobretudo, o que não quer. Preto no branco: não precipitem eleições antecipadas, por favor, que os tempos não estão para isso. As reacções foram as óbvias. Os partidos da maioria aplaudiram energicamente, os partidos da oposição não conseguiram disfarçar o desconforto e a desilusão. De tal forma que foram ao ponto de afirmar que o Presidente tinha acabado de confirmar uma lamentável colagem à coligação no poder, algo que se adivinhava, pelo seu passado, mas que deveria ficar escondido na sua magistratura. Chegamos a um ponto curioso, onde, por mais voltas que dê à cabeça, não consigo discordar veementemente com ninguém. Ou seja, daquelas situações problemáticas em que se percebe, friamente, os diferentes pontos de vista. Por mais arriscado que seja para a imagem do País, a esquerda não desiste de querer eleições já, para quebrar o poder PSD-CDS. Com o PS à cabeça, único partido com verdadeira e legítima ambição de poder. Mas manda a verdade que se recorde que, nestes meses antes da intervenção clara de Cavaco Silva, os socialistas têm andado num carrossel de ideias e convicções, sem que nunca tenha ficado claro se querem eleições já, ou pretendem esperar que a fruta apodreça na árvore. Ainda assim, percebe-se a desilusão de ouvir claramente o Presidente dizer aos portugueses que, por ele, deixa-se andar a coisa assim. Mas também se entende Cavaco Silva. Tantas vezes acusado de não intervir devidamente em tempos de emergência, sem uma palavra sobre a paz podre ou a austeridade galopante, veio finalmente dizer o que pensa. Talvez tarde, talvez a despropósito, mas de forma inequívoca. Criticá-lo por isso será insistir em acusá-lo de ter cão e não ter. Não há grandes conclusões a tirar, que não sejam distribuir legítima razão por todos. Lembra bem a oposição que o povo deveria esclarecer se esta ainda é a maioria que venceu claramente as últimas eleições, ou se pretende uma mudança. Como lembra bem o Presidente que a oposição deveria esclarecer os portugueses que não poderá, em consciência, optar por políticas e medidas muitos diferentes das que estão em vigor, quando há um compromisso tão apertado para cumprir com quem nos empresta dinheiro. Contas feitas, é provável que umas eleições levassem apenas a uma (mais uma…) alternância de poder entre os dois maiores partidos, mas sem resultados práticos sensíveis que melhorassem substancialmente a vida dos cidadãos. Ou então a esquerda tem uma extraordinária solução que ainda não explicou de forma consistente. Estranhos tempos, de constante dilema, que são um pouco como o contrário do famoso ditado que diz que em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Aqui, parece-me que todos têm a sua pequena parte de razão, e o difícil é perceber o que seria, de facto, melhor para os portugueses. Ou menos mau, o que já não seria pouco.
2 Com o calor a chegar finalmente, um jornal diário avança com uma série de “artigos” e “depoimentos de especialistas” sobre o eterno e apetecido tabu da vida sexual de todos nós. O bónus são uns desenhos que nos ensinam posições do “Kama Sutra”. Continuo a espantar-me com a coisa, mas pelos vistos não estou muito acompanhado. Para levar esta aposta por diante, o jornal saberá que terá o interesse maroto de muitos leitores. Não há nada a fazer. Pode o sexo ser a nossa actividade mais antiga, que será sempre tratado como coisa nova, como descoberta. O que vem lá? Leio grandes novidades, como que a atracção entre homem e mulher depende de muitos factores, ou que um dos grandes segredos para uma sexualidade sadia no casal é não deixar arrefecer a paixão, reacendendo-a com surpresas que demonstrem que o afecto pelo outro continua bem vivo. Há, depois, uma outra enorme revelação: que muitas vezes homens e mulheres têm algumas fantasias que demoram a revelar ao parceiro, mas que o devem fazer porque o diálogo é muito importante numa relação amorosa. Repito: não há nada a fazer. Podem os jornais e revistas publicar isto todos os anos (sim, todos os anos), que todos os anos haverá gente a devorar tamanha revelação de tamanhos mistérios.