1 Uma das notícias que fez rir o País na semana passada não tem piada nenhuma, em meu entender. Porque é constituída por várias partes tristes. Mas comecemos pela própria hierarquia da notícia, que me parece mal feita desde o início. A história chegou-nos assim: um homem na casa dos seus 60 anos pode ser processado porque se fazia passar por Mcikael Carreira na internet, aliciando dezenas de mulheres, que se despiam em frente à câmara, permitindo-lhe gravar a cena, certamente como inspiração para intimidades… A notícia acrescentava que apenas um punhado das muitas dezenas de mulheres tinha avançado com queixa formal, pelos motivos que se adivinham, invasão de privacidade, ocultação e falsificação de identidade, blá, blá, blá. Um pequeno coro de virgens ofendidas. Extraordinário. Lendo e relendo a notícia, ocorre-me uma outra abordagem jornalística: eu começaria sempre por realçar o facto de que dezenas de mulheres deste país, entre os 20 e os 40 anos, muitas delas casadas, estão dispostas a despir-se na internet se pensarem que do outro lado está o Mickael Carreira a observar. Este, sim, parece-me o facto relevante da história, o mais absurdo e surpreendente. E no capítulo das acusações e ameaças de processos judiciais, as senhoras, para mim, correriam o sério risco de serem processadas por estupidez aguda, situação que a nossa Lei deveria já contemplar, tantos são os casos que vamos conhecendo. Sejamos sérios e claros ao tirarmos as principais conclusões. Temos, por um lado, um sexagenário que se excita com uma vida dupla, a elaborar um jogo de pequeno pervertido no silêncio do computador, com a mulher e filhos na sala do lado, longe de imaginarem. Ele terá agora a tarefa difícil de se explicar à família, e logo se verá o que resulta daí. Não será certamente o único a viver vida dupla ou tripla de cristão bem-comportado pela fachada, e garanhão descompensado nos bastidores. Mas a verdade é muito simples: podem mil homens ter este comportamento de caça, que não conseguiriam nada sem a cumplicidade das presas. À distância do computador, despe-se quem quer, não há, felizmente, perigo real de violação ou abuso. E a verdade é que estas mulheres não só acreditaram ser Mickael Carreira que as contactava como não hesitaram em fazer o que ele lhes pedia, como (o mais incrível) não se questionaram se seria “normal” que um jovem cantor conhecido lhes pedisse tal coisa. Despiram-se, diz-se que fizeram algumas mais do que isso, com poses e toques que Mickael ia pedindo. O que diz muitíssimo da “saúde” sexual da maior parte das pessoas e casais, e prova, se preciso fosse, que os gritinhos histéricos de mamãs e filhinhas nesses concertos são meros desconchavos e vazios sexuais, e pouco ou nada têm a ver com a beleza da melodia musical que o jovem tenta alcançar. Contas feitas, e para aprendizagem futura, o que continuo sem perceber é porque são apresentadas queixas. No lugar destas mulheres, eu calava-me bem caladinho à espera que a coisa passasse.
2 Fui uma única vez a Amesterdão, e não quis perder a oportunidade de um encontro com a História. Visitei a casa onde a pequena Anne Frank viveu escondida da ocupação nazi enquanto pôde. Visitei-a, como as dezenas de pessoas que se acotovelavam nos exíguos corredores e divisões, no silêncio respeitoso, na descoberta arrepiante, na angústia de tentar imaginar o que teriam sido esses dias de horror sem futuro. Quando saímos da casa, vimos todos mais humildes, mais conscienciosos da fortuna que é viver num tempo sem guerra. Seja como for, sabemos ao que vamos, e ainda assim nada nos prepara para as emoções que se sentem e que fazem com que abandonemos a casa arrasados. Pensava que isto seria universal. Mas está visto que não. Justin Bieber esteve na casa, certamente porque não tinha nada para fazer entre dois concertos, e para não ser importunado, ficou com a casa à sua disposição e da sua equipa enquanto a visitava. Não há relatos de emoção por aí além, há, aliás, testemunhos de que andou a jogar à apanhada com amigos pelas divisões onde normalmente não se ouve uma mosca. No final, não encontrou nada melhor para se exprimir do que dizer que se Anne Frank fosse viva seria certamente uma “belieber”, ou seja, mais uma fã que contribui para a sua conta crescer no banco. O que queria dizer sobre o rapaz não se adequa a uma crónica pública… Limito-me a acrescentar que, tão curioso como pensar em Anne Frank nestes tempos, seria bom, e educativo para o fedelho mimado e inculto, transportá-lo para a Europa da II Guerra Mundial. Até podia jogar à apanhada com outra emoção.