Um dia destes, ligou-me um jornalista da revista “Sábado”. Queria saber quantos livros eu tinha vendido até agora. Antes de responder, perguntei-lhe a que propósito vinha tão isolada pergunta. Esclareceu-me que estava a preparar um artigo, ou reportagem, ou texto, sobre os pivôs que escrevem livros. Pivôs, para quem possa ainda não saber, são os jornalistas que apresentam jornais ou programas de informação em televisão. Respondi então, primeiro, que não fazia ideia de quantos livros meus foram vendidos, e que, portanto, não o podia ajudar, e acrescentei que não me revejo nessa categoria arranjada à pressa dos pivôs que escrevem. Pensei, ingénuo, que o facto de não ter resposta para lhe dar me iria colocar fora do artigo, mas obviamente que a minha não-resposta se tornou apetecível para publicar, sublinhando o jornalista que eu “tinha sentido desconforto por ser incluído na categoria”. Postura profissional de grande classe: ‘não me quiseste responder, deixa estar que já te mando aqui uma boca’. Começo então por constatar que o jornalista tem ouvido pouco apurado, o que na nossa profissão complica a tarefa. Porque onde ele escutou desconforto houve, na verdade, enjoo. Desconforto seria mais eu ter sido apanhado de alguma maneira, por algo que não esperava e quero manter secreto, e balbuciar uma argumentação à pressa. Acontece que a forma como me colocou a questão foi tudo menos uma surpresa, daí o enfado, mais o aborrecimento, mais o bocejo. Os “temas”, no jornalismo, são absolutamente recorrentes, maneira elevada de dizer que se repetem à exaustão. Portanto, se já houve uma dezena de historietas sobre a grande novidade de pivôs escreverem livros, era uma questão de tempo até alguém pegar outra vez na coisa, e agora resta-nos esperar pela próxima, que não deve tardar. Como achou que eu estava “desconfortável”, não me deixou explicar que o facto de não me rever na categoria em que me quer incluir é, apenas, o facto de eu desprezar categorias (sempre, sempre, forçaditas e facilmente rebatíveis). Não me expliquei, e não vou explicar mais, para não me enjoar a mim próprio, que escrevo (ou escrevi) porque me perguntei sempre se conseguiria arriscar fazer o que admiro, e pouco teria importado ser jornalista, electricista, jogador de básquete ou empregado de mesa. Mas o mais importante é reforçar que o meu enfado não é ver-me ao lado dos meus “colegas”: é ver gente que ainda faz dessa colagem artificial assunto. Não tenho nada contra pivôs (falta-me masoquismo), não tenho nada contra quem escreve (continua a faltar-me masoquismo), tenho tudo contra gente que vive a arranjar rótulos, e apenas para certos autores. Não é por acaso que o tonzinho de sorrisinho condescendente destes artigos se destina, exclusivamente, a jornalistas de televisão. Todos os outros, e muitos também escrevem livros, já têm direito a que isso não interfira com a análise da obra. São os jornalistas muito sérios da imprensa, e qualquer um que bote livro é tratado e entrevistado como autor. Talvez devesse constar no artigo, digo eu, as formas e timings completamente diferentes como cada um ou uma que enumera chegaram à escrita, e as diferentes linguagens, sejam boas, más, assim-assim, elaboradas, simplistas, complicadas, convencidas (isso os leitores que decidam). Agora que recebi o telefonema e depois de ler o resultado, pela milésima vez, fico à espera de artigos complementares, ora deixa cá ver, talvez sobre médicos que escrevem, podem juntar António Lobo Antunes, o irmão, o Fernando Namora, o Miguel Torga, mais o Gentil Martins, que escreveu o “Grande Livro da Saúde e Bem-Estar”. Ah, e acrescentar-lhe o António Damásio, porque quando se junta as palavras médico e livro ele também aparece. Ou então (agradeçam a ideia que dou) porque não humoristas que escrevem, e elucidem-me sobre as vendas de Ricardo Araújo Pereira em comparação com o livro de anedotas do Fernando Rocha. Ou se calhar estou errado, e talvez Ricardo deva ser encarado como “intérprete de sucessivas campanhas publicitárias” que escreve, e compará-lo, em interessante artigo, à sua congénere Filipa Vacondeus, que nos vende trens de panelas e nos arrebata na obra “Os Truques da Filipa”. Aqui fica todo um mundo de ideias para futuras reportagens engraçaditas. Não tem nada do que agradecer.
O Bocejo
Não tenho nada contra pivôs nem contra quem escreve, tenho tudo contra gente que vive a arranjar rótulos, e apenas para certos autores