
Lembrei-me de uma piada que ouvi em adolescente, os meus pais tinham em vinil discos de espectáculos de comédia de Juca Chaves ou Chico Anísio. Não me lembro qual dos humoristas brasileiros era, mas a cena era um soldado que dizia ao seu superior “não se preocupe comigo, capitão, comigo é sempre ou mato ou morro”. O capitão, claro, elogia-lhe a bravura e aponta-o como exemplo. Mas mal ele vira as costas, o soldado elucida os companheiros de armas: “o que eu quis dizer é que se eles vierem pelo mato, eu fujo para o morro, se vierem pelo morro, eu fujo para o mato”. A piada, que só resulta bem com sotaque brasileiro, assenta ainda melhor na situação que vivem os portugueses, alguns já o percebem, outros nem por isso. A situação de encruzilhada, quero dizer. Que vivemos momentos terríveis é por demais sabido e que a tentação de culpar o Governo seja cada vez maior é absolutamente compreensível. Mas vem a questão da alternativa. Houvesse, no horizonte, uma solução clara, uma eficaz resposta, e não havia desculpa para se perder muito tempo com esta agonia. O PS diz que a tem, como é óbvio, como o PSD o faria se estivesse na oposição. E o nosso grande problema continua a ser este; seja a crise profunda e grave, ou passageira e leve, os partidos mantêm as mesmas tácticas de guerrilha, tendo, sempre, como preocupação principal, saber como chegam ao poder assim que são relegados para a oposição. Andam sempre preocupados entre o mato e o morro. E nós angustiados entre o mato e o morro. No momento particular, e tristemente histórico que atravessamos, conviria reflectir, digo eu, sobre o sentido e eficácia que ainda terão hoje as greves gerais. Que não são nem uma manifestação nem uma agressão. Apenas um dia, devidamente calendarizado, em que os sindicatos têm garantia de mais um espaço nobre de tempo de antena, para repetirem, no fundo, o que repetem em todos os outros dias. Os governos, quer-me parecer, já assobiam para o lado. Volta tudo ao mesmo no dia seguinte. No dia da greve, o que se verifica realmente? Milhares de “grevistas”, já que não vão trabalhar, vão para a praia, ou fazem já as malas para aproveitarem a ponte, o fim-de-semana prolongado. Bom, está bem, mas ao menos prejudica-se o Governo, que é o grande objectivo… Bem, eu diria que se prejudica, sobretudo, os compatriotas, os que não podem mandar os filhos à escola, os que tinham consultas marcadas, os que tinham algo para resolver nas finanças, os que só podem chegar ao emprego de autocarro. Respondem os grevistas, naturalmente, que uma greve tem na sua natureza trazer incómodos, senão não haveria razão para a fazer. Sim, mas convirá de uma vez por todas perceber quem de facto é afectado, e se faz sentido provocar transtorno precisamente àqueles que é suposto a greve defender. Pois, um dilema… Entre mato e morro, nenhuma boa solução. Depois, outro dilema: as greves portuguesas são civilizadas. Tirando uma tensão aqui, outra acolá, tudo se processa pacificamente. É algo que nos deve orgulhar, sem qualquer ironia, mas pergunta-se se uma luta é uma luta ou não. Vemos noutros países que greves gerais são dias de tumultos sérios, daqueles que realmente fazem suar os governos, e que muitas vezes operam verdadeiras mudanças. Diz-se que os governos precisam de “ouvir a rua”. Talvez. Mas se for só ouvir, fechar a janela e esperar tranquilamente pelo dia seguinte, que mudanças ocorrem? Não temos visto muitas. E quando se descobrir a forma de as fazer (claro que eleições são sempre uma ocasião) deve pensar-se no que lá vem. Não admira que o PS esteja já a ser pressionado a comprometer–se com alternativas e medidas antes mesmo de qualquer campanha eleitoral. Senão, mudarão apenas os nomes dos políticos que o povo há–de insultar nas ruas.