
1 É um exercício engraçado. Ler com alguma atenção pequenas secções de jornal que normalmente atravessamos com indiferença. Depois do pequeno-almoço, aproveito uns minutos ao ar livre, e levo comigo o jornal. Ponho-me a par do importante primeiro (a profissão a isso obriga…), e depois relaxo, a caminho das páginas finais, com notas soltas, sobretudo do chamado mundo do entretenimento. Alguns jornais, por exemplo, dedicam papel a transcrições do fascinante mundo das “redes sociais”, através do qual as estrelas comunicam umas com as outras e fornecem aos fãs informações muito relevantes sobre a sua vida. No dia em causa, leio que uma actriz nos informa que “anda aqui uma mosca a dar-me cabo dos nervos”, e que uma apresentadora nos elucida que tem “a malinha do bebé quase pronta para rumar ao Algarve”. Não só: um modelo anuncia “cheguei ontem e hoje lá vou eu de novo, Ibiza, semana atarefada”. Penso, na minha ingenuidade de info-excluído, que a diferença entre escrever coisitas destas e estar quieto é…nenhuma. Mas devo estar enganado. Há, pelos vistos, um interesse contínuo em postar e ler o que foi postado por outros, ainda que as informações que se trocam sejam do domínio do absolutamente irrelevante, mas parece que está na moda achar muita graça a pensar alto os mais insignificantes momentos do quotidiano. Há, na base do mecanismo, uma ideia fantástica, que nos diz que toda a gente se tem em grande conta, basta pensar que partem do princípio que estamos interessados em seguir todos os pequenos passinhos do seu dia. Espanta-me, aliás, que não apareça alguém (ou se calhar já apareceu, que sei eu?) a colocar apenas duas mensagens alternadas: uma a informar-nos que vai à casa de banho, outra a elucidar-nos que já acabou. Aqui fica uma ideia.
2 Na mesma página, vem uma pequena entrevista com um jovem actor, que se prepara para um papel muito exigente: vai fazer de gay numa novela. Antes de avançar, ponho-me a tentar adivinhar as perguntas e as respostas. Tivesse sempre tão grande pontaria, e já me teria saído o Euromilhões. Porque lá vem a inevitável questão de sabermos se o actor se encontra preparado para tão grande desafio. Ao que o actor responde, naturalmente, que é de facto o papel mais desafiante da sua carreira. E fez algum estudo para interpretar personagem tão difícil ? Claro que sim (os actores de novela portuguesa são grandes seguidores do Método). E como se preparou? Bom, obviamente que começou por ver os filmes e documentários (?) sobre o tema, mas saiu também à noite e acompanhou amigos num circuito homossexual que desconhecia. Claro. E acrescenta uma periclitante informação: que descobriu neste processo uma sensibilidade que antes não tinha (ai… daquelas que podem fazer sorrir mentes mais maldosas). Bom, o que realmente interessa aqui é que as perguntas e respostas feitas e dadas mil vezes sobrevoam uma paisagem que é também muito comum entre os nossos actores: todos querem papéis muito difíceis, muito polémicos, muito fracturantes. Todos querem mostrar o seu lado de bad boy e bad girl. Todos anseiam por fazer de mau, de vilão, de stripper, de gay, de deficiente, de drogado, de prostituta, de ter um defeito na fala, sofrer de amnésia…todos esse mundo de possibilidades onde julgam receber depois elogios “caramba, foste brutal, é realmente como se fosses outra pessoa, caramba, a forma como te transfiguras até arrepia”, e por aí fora. Por mim, continuo a achar estranho não saber de um único actor que gostasse de fazer um credível pai normal de família normal (parece tão fácil, não é?). Mas é isto: todos a torcer para que os argumentistas lhes tragam mais um desafio, para desatarem a “estudar” para a personagem, as actrizes a verificarem, na sua investigação meticulosa, que afinal as prostitutas fingem orgasmos com os clientes, e eles, ao conversarem/entrevistarem gays, aperceberem-se de que quase todos sentiam desde cedo, muitas vezes na infância, que eram um pouco diferentes. E outras novidades absolutas que guardarão para trabalhar a personagem. Não deixa de ser curioso que, na página ao lado, venha uma citação de Johnny Depp: “Se me apanharem a dizer que sou um actor muito sério, dêem-me uma estalada na cara”.